
Por Marcos DeFreitas
A Copa do Mundo de 2026 já começou. E enquanto a bola corre pelos gramados da América do Norte, vale lembrar um personagem que raramente aparece nas escalações da memória. Sem ele, talvez não existissem os gols, as lágrimas, os heróis e as tragédias que transformam um simples torneio no maior espetáculo esportivo da humanidade.
O futebol tem seus reis, seus profetas e seus santos. Tem os gols de Pelé, os dribles de Garrincha, a elegância de Johan Cruyff, a majestade de Franz Beckenbauer, a genialidade de Zinedine Zidane, os tiros de Eusébio, as arrancadas de Ronaldo Fenômeno, o sorriso dentuço de Ronaldinho Gaúcho, a rebeldia divina de Diego Maradona, a persistência quase sobrenatural de Lionel Messi e os gols silenciosos de Miroslav Klose.
Mas antes de todos eles existiu um homem sem chuteiras, sem torcida e sem um único gol marcado.
Chamava-se Jules Rimet.

A grande injustiça do futebol é esta. O mundo se ajoelha diante dos artistas e esquece quem construiu o palco.
A FIFA nasceu em 1904, em Paris, fundada por um grupo de dirigentes europeus liderados pelo jornalista francês Robert Guérin. Jules Rimet fazia parte daquele movimento que acreditava que o futebol poderia ultrapassar fronteiras. Católico humanista, advogado e sonhador, ele carregava uma convicção quase ingênua para os padrões do seu tempo. A de que os homens poderiam encontrar na bola uma linguagem comum quando todas as outras falhassem.
Em 1921, assumiu a presidência da FIFA, com o mundo ainda tentando esquecer a Primeira Grande Guerra. Ficaria no cargo por 33 anos. Trinta e três anos dedicados a uma obsessão que muitos consideravam impossível.
Criar a Copa do Mundo.
Hoje ela parece eterna. Parece ter existido desde o princípio dos tempos. Mas não. Houve um mundo sem Copa. Houve um mundo em que argentinos, brasileiros, alemães, franceses, ingleses, africanos e asiáticos não compartilhavam o mesmo nervosismo, a mesma esperança e a mesma dor diante de um gramado.
Alguém precisou sonhar esse sonho antes de todos.
E esse alguém foi Jules Rimet.
Sem ele não teríamos Garrincha.
O homem que chamava os marcadores de “Joões”, como se todos fossem o mesmo sujeito condenado ao mesmo destino. Driblava um João, depois outro, depois mais um. Às vezes encontrava o caminho livre para o gol, mas voltava para buscar mais um João pelo caminho. Só quando a brincadeira estava completa é que resolvia marcar.
Sem Rimet não teríamos Beckenbauer atravessando o campo com a autoridade de um imperador. Nem Cruyff reinventando o futebol a cada movimento. Nem Zidane transformando uma partida em uma obra de arte silenciosa.
Sem Rimet não teríamos Eusébio disparando chutes que cortavam o ar como flechas portuguesas lançadas rumo ao infinito.
Sem Rimet não teríamos Maradona, aquele pequeno rebelde capaz de carregar um povo inteiro nas costas. Nem Messi, que passou uma vida perseguindo uma taça como quem procura uma parte perdida da própria alma até finalmente encontrá-la. Nem Klose, acumulando gols com a discrição dos homens que não fazem barulho, mas acabam entrando para a eternidade.
Sem Rimet não teríamos Ronaldo Fenômeno.
O mesmo Ronaldo que viu o mundo assistir ao colapso do seu joelho. O mesmo Ronaldo que caiu diante das câmeras quando parecia ter sido abandonado pelo destino. Milhões viram sua dor. Milhões imaginaram que aquele capítulo estava encerrado.
Mas ele voltou.
Voltou para conquistar o planeta.
Voltou para ser campeão do mundo.
Voltou para provar que alguns homens são mais fortes do que as tragédias que tentam derrotá-los.
Nem teríamos Ronaldinho Gaúcho.
O sorriso dentuço.
O olhar maroto.
A alegria que parecia desafiar a gravidade.
Olhava para um lado e passava para o outro. Driblava sem olhar para a bola. Como se estivesse brincando com um segredo que apenas ele conhecia. Como se o futebol fosse uma festa particular para a qual o resto do mundo havia sido convidado.
Tudo isso nasceu de uma ideia.
A primeira Copa, em 1930, teve apenas treze seleções. Viagens de navio. Pouco dinheiro. Pouca pompa. Nada indicava que dali surgiria o maior espetáculo esportivo da humanidade.
Mas surgiu.
E talvez o maior milagre de Jules Rimet não tenha sido criar um torneio.
Talvez tenha sido criar uma pausa na história humana.
Durante um mês a cada quatro anos, nações que mal se conhecem choram pelas mesmas razões. Pessoas separadas por oceanos gritam o mesmo gol. Homens e mulheres que jamais se encontrarão compartilham a mesma esperança.
Por alguns instantes, o mundo deixa de ser um conjunto de fronteiras e se transforma numa única arquibancada.
Pelé iluminou a Copa.
Garrincha a fez sorrir.
Beckenbauer a fez elegante.
Cruyff a fez pensar.
Eusébio a fez sonhar.
Maradona a fez sangrar.
Messi a fez acreditar.
Klose a fez eterna.
Zidane a fez dançar.
Ronaldinho a fez brincar.
Ronaldo a fez desafiar o impossível.
Mas Jules Rimet realizou algo ainda mais raro.
Ele fez todos eles caberem na mesma história.
E agora, enquanto a Copa de 2026 já desfila seus primeiros capítulos diante de bilhões de espectadores, vale lembrar daquele advogado francês, católico humanista, que jamais marcou um gol, jamais ergueu uma taça e jamais ouviu uma arquibancada cantar seu nome.
Ainda assim, foi ele quem realizou o maior dos milagres.
Convenceu a humanidade a interromper suas diferenças, suas mágoas, suas fronteiras e seus medos por um mês a cada quatro anos.
E chamou isso de Copa do Mundo.
Marcos Defreitas é jornalista formado na Universidade Estadual de Londrina e cronista convidado deste portal para a Copa do Mundo






