
Por Marcos Defreitas
Há troféus que celebram campeões. A Taça Jules Rimet fez mais do que isso. Ela atravessou fronteiras, sobreviveu à guerra, escapou de ladrões, conheceu o heroísmo improvável de um cachorro e terminou envolta no maior mistério da história do futebol. Parecia ter alma. Como se soubesse que, para permanecer eterna, precisaria desafiar o próprio destino.
Sua história começou antes mesmo do primeiro apito de uma Copa do Mundo. Em 1930, quando a FIFA inaugurou o sonho de reunir as maiores seleções do planeta, encomendou ao escultor francês Abel Lafleur uma obra que representasse a vitória. Surgiu uma elegante figura da deusa grega Nice, sustentando uma taça acima da cabeça. Naquele tempo ela era chamada apenas de Taça da Vitória. Anos depois, receberia o nome de Jules Rimet, o presidente da FIFA que transformou em realidade o projeto de uma Copa do Mundo.
A pequena taça carregava um peso que nenhum metal seria capaz de suportar. Ela reunia sonhos, derrotas, lágrimas e glórias de povos inteiros.

Mas seu destino nunca foi o de permanecer quieta em uma prateleira.
A primeira fuga aconteceu em 1939. A Itália havia conquistado a Copa do Mundo de 1938 e guardava o troféu em Roma. Enquanto a Segunda Guerra Mundial se aproximava e os exércitos nazistas espalhavam o medo pela Europa, o dirigente italiano Ottorino Barassi temeu que a taça desaparecesse para sempre. Retirou-a discretamente do cofre de um banco, colocou-a dentro de uma simples caixa de sapatos e a escondeu sob sua própria cama. Durante anos, o maior símbolo do futebol mundial repousou ali, protegido mais pela coragem de um homem do que por qualquer exército.
Terminada a guerra, a taça voltou à luz do dia, como quem retorna de um longo tempo de silêncio.
Veio então 1966.
Londres preparava uma grande exposição para receber o mundo. Entre tantas atrações estava a Jules Rimet. Parecia impossível que alguém ousasse roubá-la. Mas ousou. A Scotland Yard mobilizou investigadores, interrogou suspeitos e não encontrou resposta alguma. Até que entrou em campo um herói que jamais vestiu chuteiras.
Chamava-se Pickles.
Passeando com seu dono, o cachorro farejou um embrulho escondido sob uma cerca viva. Dentro dele estava a taça desaparecida. O mundo respirou aliviado. Pickles virou celebridade instantânea, participou de programas de televisão, recebeu homenagens e ganhou ração para o resto da vida. Talvez tenha sido o único cachorro a entrar para a história do futebol sem jamais tocar numa bola.
Conta-se que, diante desse episódio, um dirigente da delegação brasileira comentou que aquilo jamais aconteceria no Brasil, porque aqui até os ladrões amavam o futebol.
Era uma frase bonita.
Só não era verdadeira.
Quatro anos depois, em 1970, o Brasil encantou o planeta no México e conquistou a sua terceira Copa do Mundo. Pelo regulamento da FIFA daquela época, a seleção que alcançasse o tricampeonato ganharia o direito de ficar com a posse definitiva do troféu original. A Jules Rimet encontrava, finalmente, um lar permanente na terra do futebol arte.
Em dezembro de 1983, a Jules Rimet estava na sede da Confederação Brasileira de Futebol, no Rio de Janeiro. Criminosos invadiram o prédio e levaram a taça. Nunca mais foi encontrada. A investigação concluiu que ela provavelmente foi derretida para venda do metal, encerrando de forma melancólica uma trajetória que atravessara guerras, continentes e gerações.
Parecia impossível que um objeto tão pequeno carregasse uma biografia tão imensa.
A Jules Rimet assistiu ao nascimento da Copa do Mundo, testemunhou o futebol tornar-se uma paixão universal, viu craques escreverem seus nomes na eternidade e aprendeu que a glória também pode ser perseguida pela tragédia.
Talvez seja essa a ironia mais bonita de sua história. A taça desapareceu três vezes. Na primeira, foi salva pela coragem de um homem. Na segunda, pelo faro de um cachorro. Na terceira, perdeu-se para sempre.
Ou talvez não.
Porque alguns troféus deixam de existir apenas na matéria. Na memória do futebol, onde os grandes símbolos jamais enferrujam, a Jules Rimet continua brilhando. Não como um pedaço de metal precioso, mas como um personagem inesquecível de um jogo que, de tempos em tempos, nos faz acreditar que até uma taça pode ter destino, suspense e coração.
Marcos Defreitas é jornalista formado na Universidade Estadual de Londrina e cronista convidado por este portal para a Copa






