
Por Marcos Defreitas
O palco da eternidade está pronto e a mítica Nova York, com as luzes imponentes de New Jersey no MetLife Stadium, assistirá ao desfecho da maior e mais monumental Copa do Mundo de todos os tempos. É ali, sob o céu da capital do mundo, que a bola rolará para coroar o destino ou a heresia. A grande final que ocorrerá neste domingo, dia 19 de julho de 2026, com o duelo colossal entre a atual campeã Argentina e a Espanha, representará muito mais do que um simples torneio de futebol. Será na verdade o ápice da maior despedida coletiva que a humanidade já testemunhou, um adeus definitivo que o torcedor comum, entorpecido pelo frenesi das redes sociais, ainda não conseguiu digerir nesta sexta feira que antecede a glória e o luto. Durante duas décadas o planeta se acostumou mal a ver os mesmos monstros sagrados ocupando o topo. Pareciam deuses imortais, imunes ao desgaste da carne. Mas o destino, esse sujeito implacável e sem coração, não concede imunidade a ninguém. A vida como ela é cobrou seu preço em solo norte americano e o que se presenciou foi um crepúsculo doloroso.
Contemplamos o fim de lendas que teimavam em não morrer. Lionel Messi da Argentina, aos 39 anos, desfilou sua genialidade nostálgica pela última vez nos gramados. O craque argentino e o jovem Kylian Mbappé da França alcançaram o topo absoluto do esporte ao virarem os maiores artilheiros de todas as Copas da história, um feito absurdo que esmaga qualquer estatística prévia. Mbappé, com a insolência de sua juventude e sua velocidade assustadora, ainda alcançará novas estatísticas assombrosas, devorando recordes futuros com a fome dos predadores insaciáveis, mas nunca terá o lirismo dos velhos tempos. Do outro lado da moeda, Cristiano Ronaldo de Portugal, consagrado como o maior artilheiro desse esporte de todos os tempos, desafiou os limites do corpo aos 41 anos, travando sua última batalha inglória contra o tempo. Junto deles no panteão dos que disputaram 6 mundiais, o goleiro mexicano Guillermo Ochoa do México, aos 40 anos, fez milagres diante de sua torcida apaixonada antes da queda inevitável.
Enquanto isso, a nossa pátria de chuteiras amargou um luto dramático e vexatório. Neymar do Brasil, aos 34 anos, findou de forma melancólica sua última Copa do Mundo. Em vez do brilho técnico que outrora prometeu, o craque se despediu ao seu pior estilo polêmico e totalmente anti esporte, protagonizando brigas infantis, discussões estéreis e um colapso emocional que enterrou as nossas esperanças. Ao seu lado, o volante Casemiro do Brasil, também com 34 anos, arrastou sua lentidão exasperante pelo gramado, incapaz de acompanhar a velocidade dos novos tempos. Ambos simbolizaram com sua apatia e descontrole o fracasso de uma geração que envelheceu sem amadurecer, maculando as glórias antigas do futebol brasileiro que outrora dominaram o planeta com dignidade e poesia.

O drama dos gigantes se espalhou pelo globo terrestre. Luka Modric conduziu a Croácia aos 40 anos com a postura de um maestro que regia seu próprio funeral esportivo. A Bélgica chorou o fim da sua geração de ouro com Kevin De Bruyne da Bélgica, o craque de 35 anos com cara de garoto mimado que flopou no momento decisivo, e Romelu Lukaku da Bélgica, que aos 33 anos lutou bravamente contra o peso da própria história. Nos Países Baixos, o zagueiro Virgil van Dijk da Holanda impunha sua autoridade de xerife aos 34 anos até a eliminação dos neerlandeses, enquanto na meta alemã o goleiro Manuel Neuer da Alemanha fechou as cortinas de sua rica trajetória aos 40 anos com uma queda precoce que chocou os puristas.
O torneio de 48 seleções resgatou velhos ídolos que já se despediram da América do Norte. James Rodríguez da Colômbia, aos 34 anos, tentava sem sucesso reviver o brilho de 2014. Mohamed Salah do Egito, aos 33 anos, carregou sua seleção como um faraó solitário antes da eliminação. Son Heung Min da Coreia do Sul, aos 33 anos, correu contra o relógio mas acabou fora ainda na fase de grupos. Sadio Mané de Senegal, de 34 anos, e Edin Dzeko da Bósnia e Herzegovina, o gigante de 40 anos, também deram seus últimos suspiros no grande palco mundial.
Nas margens da competição, veteranos extremos deixaram saudades. Craig Gordon da Escócia se despediu como o atleta mais velho do torneio aos 43 anos. Yuto Nagatomo do Japão voou pela lateral aos 39 anos antes de o Japão cair no mata mata contra os brasileiros. O goleiro Vozinha defendeu Cabo Verde aos 40 anos carregando o sonho de sua pequena ilha pela última vez, e o goleiro paraguaio Gatito Fernández do Paraguai deu segurança ao Paraguai aos 38 anos, sabendo que o futebol é um teatro de ilusões.
Agora o futuro bate à porta sem nenhuma delicadeza. Jovens como Erling Haaland da Noruega, Lamine Yamal da Espanha, Pedri da Espanha e principalmente o brilhante Jude Bellingham da Inglaterra já estão prontos para herdar o mundo. Bellingham, com sua fidalguia britânica e passadas imperiais, lidera essa geração que ganhará cliques, likes, fortunas obscenas e títulos de plástico, mas que jamais compreenderão o tamanho da era que acabou de passar. Quando o juiz apitar o fim da grande final neste domingo, o planeta sentirá um vazio colossal, um silêncio sepulcral de arquibancadas vazias na calada fria da noite, onde as bandeiras abandonadas serão varridas pelo vento da indiferença. Ver deuses do calibre de Messi, Cristiano Ronaldo, Ochoa e Vozinha caminhando de cabeça baixa, sob a penumbra dos refletores que se apagam um a um, para fora do palco principal, foi a imagem mais excruciante e dolorosa da nossa história recente, o verdadeiro sepultamento de nossa própria juventude.
É o fim dos milagres espontâneos, a morte da fantasia que nos salvava da dureza da vida cotidiana. Entramos, sem anestesia, na escuridão de um futebol robotizado, do VAR e sem poesia, onde os números importam mais do que o sentimento. Certas eras não terminam no calendário, elas morrem deixando uma imensa, incurável, sangrenta e eterna saudade que rasga a nossa alma para sempre, restando apenas o eco fantasmagórico de gritos de gol que nunca mais voltarão a soar da mesma forma.
E no horizonte melancólico do futuro, o próprio tempo tentará cicatrizar essa ferida ao resgatar suas origens míticas. A próxima grande jornada de 2030 buscará a sua alma no exato lugar onde tudo começou, pois o jogo inaugural ocorrerá no Uruguai, na mística celebração do centenário das Copas, seguido por duelos carregados de paixão na Argentina e no Paraguai, antes de a caravana inteira migrar de vez para os gramados modernos da Espanha, de Marrocos e de Portugal. Será uma peregrinação poética, um esforço heróico para reviver o passado, mas todos nós saberemos, em silêncio, que os templos antigos estarão vazios. A poesia terá partido para sempre com os deuses que hoje nos dizem adeus.
Marcos Defreitas é jornalista formado pela Universidade Estadual de Londrina e cronista convidado pelo VEC para a Copa do Mundo






