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Onde Metade das Copas do Mundo Encontrou Seu Lar

Onde Metade das Copas do Mundo Encontrou Seu Lar

Por Marcos Defreitas

Dizem que Deus está em todo lugar. Pode até estar. Mas quando o assunto é Copa do Mundo, há fortes indícios de que Ele tenha um endereço preferencial neste cantinho da América do Sul. Afinal de contas, Brasil, Argentina e Uruguai formam um triângulo tão abençoado que guardam dez das vinte e duas taças da história. É quase metade do estoque mundial. Se Copa fosse mercado, o resto do planeta já teria chamado o Procon.
Tudo começou com o Uruguai, aquele país que cabe no mapa com certa modéstia, mas entra na história com a autoridade de um gigante. Em 1930 resolveu inaugurar a Copa do Mundo vencendo a primeira edição e, vinte anos depois, aprontou uma das maiores travessuras já registradas pelo futebol. Em pleno Maracanã lotado, diante de um Brasil que já ensaiava a festa, os uruguaios cometeram a ousadia de estragar o roteiro. O planeta conheceu o Maracanazo e o Uruguai ganhou a fama de especialista em aparecer quando ninguém o convida. Naquele grupo de heróis estavam Juan Alberto Schiafinno, dono do gol que abriu a porta da virada mais famosa do futebol, e Obdulio Varela, o lendário El Negro Jefe, que parecia carregar não apenas a braçadeira de capitão, mas a alma inteira do Uruguai nos ombros.
O Brasil entrou na história logo depois e decidiu que não bastava ganhar. Era preciso ganhar com elegância, com samba, com drible e, se possível, deixando os adversários olhando para o vazio enquanto a bola passava. Em 1958, o mundo conheceu Pelé e Garrincha. Em 1962 Garrincha resolveu carregar um país inteiro nas costas como quem leva uma sacola de feira. Em 1970 surgiu aquela seleção que até hoje faz idosos suspirarem e jovens pesquisarem vídeos para entender se aquilo aconteceu mesmo. Pelé comandou uma orquestra que parecia jogar futebol por diversão.
Vieram ainda 1994, quando a eficiência venceu a ansiedade, e Romário transformou a Copa numa demonstração prática de como um gênio pode resolver problemas sem desperdiçar movimentos. Em 2002 Ronaldo Fenômeno transformou a grande área em seu quintal particular enquanto Ronaldinho Gaúcho distribuía sorrisos e mágicas com a mesma facilidade. E entre uma conquista e outra existiu Zico, que talvez seja a maior prova de que o futebol nem sempre distribui justiça. Jogava como um poeta da bola, mas o destino lhe negou a taça que seu talento merecia.
A Argentina, que jamais aceitaria ficar assistindo tudo da arquibancada da história, também tratou de construir sua coleção. Ganhou em 1978, com Mario Kempes correndo e marcando gols como quem tinha combinado tudo previamente com a bola. Encantou o planeta em 1986 quando Diego Maradona transformou uma Copa do Mundo numa obra de arte ambulante e alcançou a redenção perfeita em 2022. Depois de anos perseguindo o troféu como um poeta atrás da palavra exata, Lionel Messi finalmente encontrou seu final feliz. Entre uma geração e outra ainda floresceu Gabriel Batistuta, um centroavante que chutava tão forte que dava a impressão de estar zangado com a bola desde a infância.
E como se tudo isso não bastasse, este pedaço do continente ainda produziu figuras que parecem saídas de um romance. O Doutor Sócrates, que pensava o jogo com a mesma profundidade com que pensava a vida. E Alfredo Di Stéfano, argentino de nascimento, espanhol por destino e cidadão eterno do futebol. Nunca disputou uma Copa do Mundo por aquelas ironias que o esporte adora colecionar, mas foi considerado pelo próprio Pelé o jogador mais completo de sua época. Mais recentemente surgiu Luis Suárez, um atacante que reúne a técnica refinada dos grandes craques uruguaios com a irreverência de quem nunca pediu licença para entrar na história.
Enquanto outras regiões discutem esquemas táticos, investimentos milionários e fórmulas científicas para fabricar craques, este canto da América do Sul continua produzindo futebol como quem produz vento, chuva ou pôr do sol. De maneira natural, espontânea e até um pouco irresponsável.
Talvez seja por isso que tantas taças tenham vindo parar por aqui. A bola, quando desembarca neste continente, parece perceber que chegou em casa.

Marcos Defreitas é jornalista formado na Universidade Estadual de Londrina e colunista convidado deste Portal para a Copa do Mundo

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