
Por Marcos Defreitas
O Palácio do Planalto e a Granja Comary ficam a centenas de quilômetros de distância, mas, no Brasil, a linha que separa a cadeira presidencial da grande área sempre foi um traço de giz na areia. Há uma força magnética irresistível que empurra os donos do poder em direção aos donos da bola, geralmente resultando em um choque de egos onde a liturgia do cargo costuma sair com o calção sujo de lama. Governantes adoram se comportar como técnicos de arquibancada, esquecendo que o vestiário da Seleção Brasileira é um território soberano e, muitas vezes, implacável.

A história é cíclica e gosta de se repetir em tons de deboche. Em mil novecentos e setenta, no auge do inverno da ditadura militar, o presidente e general Emílio Garrastazu Médici cismou que o atacante Dario, o Dadá Maravilha, tinha que ser o centroavante do esquadrão que iria para a Copa. Encontrou no caminho um jornalista e cronista de carteirinha que não aceitava palpite tático de quartel. João Saldanha, o João Sem Medo, limpou a garganta e disparou a máxima definitiva que dizia que o presidente escala o ministério e a Seleção escalo eu. Saldanha caiu antes de viajar para o México, substituído por Zagallo, mas deixou cravada a bandeira da independência do futebol diante da caneta oficial.
Décadas mais tarde, já na era democrática, Luiz Inácio Lula da Silva resolveu testar os mesmos limites ao assumir o papel de comentarista de peso. Em dois mil e seis, quebrando qualquer protocolo diplomático em uma videoconferência ao vivo, o mandatário quis saber se o atacante estava acima do peso, perguntando diretamente à comissão técnica se o Ronaldo está gordo ou não está gordo. O troco veio com o efeito de um chute de trivela. Do outro lado do mundo, o camisa 9 rebateu publicamente, afirmando que todo mundo diz que Lula bebe para caramba e que tanto é mentira que ele bebe para caramba quanto é mentira que ele esteja gordo. Foi um drible desconcertante que obrigou o Planalto a redigir cartas de desculpas, provando que o Fenômeno não aceitava marcação cerrada nem do chefe de Estado.
O tempo passou, os personagens mudaram, mas o vício do palpite presidencial continuou o mesmo. Recentemente, o alvo da vez foi o atual camisa dez, ironizado por Lula sob a alegação de que ele não poderia mais ser considerado um atleta de ponta no exterior, definindo-o de forma provocativa como o primeiro convocado home office do mundo. A resposta de Neymar manteve a tradição do contra-ataque sem filtros, publicando uma sutil e direta ironia em inglês dizendo que estava no day off, deixando claro que não existia dia de folga nos seus treinos. A oposição não perdeu tempo e pegou carona no episódio para fustigar o chefe do Executivo, criando uma daquelas lendas urbanas de internet que espalhou que a verdadeira resposta do jogador teria dito que ele nunca foi preso.
Entre generais e presidentes operários, a bola continua sendo o elemento mais democrático e atrevido do país. Ela não pede bênção ao poder e não se curva ao terno e gravata. No grande Fla-Flu da história brasileira, quem senta na cadeira presidencial pode até assinar o Diário Oficial, mas, quando resolve invadir a área para apitar o jogo, quase sempre sai de campo levando uma goleada de deboche dos donos da camisa dez.
Marcos Defreitas é jornalista formado na Universidade Estadual de Londrina cronista convidado por este portal para a Copa






