Futebol

A Copa da Desconfiança e a Morte da Ilusão no VAR

A Copa da Desconfiança e a Morte da Ilusão no VAR

​Por Marcos Defreitas

O futebol sempre foi uma arte da imperfeição, um drama em que o homem desafiava o imponderável com a ponta da chuteira e o sopro do gênio. No gramado, a bola rolava livre, grávida de mistérios, desenhando parábolas que encantavam multidões. Mas o tempo passou, e o jogo romântico deu lugar à engenharia do controle e aos interesses de uma FIFA puramente comercial. A precisão fria dos computadores sufocou o imprevisto, e a bola agora parece chorar em campo, desprovida de sua antiga alma.
​Hoje, a beleza caminha desamparada pelos cantos do campo. O glamour esfriou. O grito de gol, que antes era uma explosão instantânea de luz e poesia, um parto da própria alma do torcedor, agora vive congelado na tela fria de uma cabine de vídeo. O VAR, esse sistema eletrônico de checagem composto por juízes trancados em uma sala repleta de monitores que revisam o jogo em câmera lenta, transformou o rito sagrado em uma auditoria contábil enfadonha e cruel, que destrói cenários e altera a história de acordo com o peso político de quem está no gramado. Espera-se o clímax apenas para que, minutos depois, um tribunal invisível escave o passado em busca de uma linha geométrica ou de um erro retroativo.

A Copa da Desconfiança e a Morte da Ilusão no VAR


​Exemplos dessa decadência sobram nesta competição e machucam os olhos de quem ama o esporte. O primeiro deles foi o verdadeiro assalto contra o futebol brasileiro. O gol esplêndido de Vinícius Júnior contra a Escócia acabou tragicamente cancelado pela tecnologia, que decidiu retroceder o tempo para buscar uma falta na jogada. Uma interferência descabida que pune a plasticidade do lance. Somou-se a isso o escândalo de ontem com o Egito, violentado por decisões controversas da arbitragem. Os egípcios viram o seu gol ser anulado pela cabine de vídeo, que vasculhou o passado e descobriu uma falta muito e muito antes do gol, ainda na bola roubada do ataque argentino, em uma interferência cirúrgica para proteger o placar da potência sul-americana. Em contrapartida, o mesmo tribunal eletrônico preferiu a omissão covarde no jogo contra a Argélia ao ignorar a entrada criminosa de Lionel Messi, um lance passível de cartão vermelho direto que foi solenemente abafado para preservar o astro argentino e garantir a audiência da competição.
​Jules Rimet certamente olharia para essa modernidade higienizada com uma melancolia profunda, sabendo que, ao tentar eliminar o erro, extinguiram também a paixão.

​Diante de tanto arbítrio, o Brasil assiste ao espetáculo de mãos atadas e sem voz. A CBF, outrora gigante e temida nos bastidores do esporte, hoje carece totalmente de força política e credibilidade internacional, comandada por uma presidência isolada vinda de Roraima, um estado que possui apenas nove times profissionais e nenhum nas séries A, B ou C do cenário nacional. Sem qualquer peso político nos corredores de Zurique, resta ao futebol brasileiro o lamento dos inocentes, enquanto a tecnologia legitima a desconfiança.
​O veredicto é doloroso e definitivo. O que testemunhamos nesta era tecnológica não é a evolução do esporte, mas o sepultamento definitivo do futebol magia. Aquela malandragem divina, o drible moleque e a mística que faziam do campo um palco de milagres foram assassinados pela frieza das telas e pelo dinheiro. O futebol virou um produto de escritório, um espetáculo plástico e sem coração, onde o lúdico foi esmagado pelo algoritmo. É o fim de uma era dourada, o último suspiro da poesia grávida de paixão que nunca mais voltará.

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Da Redação

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