
Por Marcos Defreitas
Existem gols que entram para a história. Existem gols que entram para os livros. E existe o gol de Carlos Alberto Torres na final da Copa de 1970, que entrou para um lugar mais raro, a memória afetiva do futebol. Não foi apenas um gol. Foi um espetáculo tão bonito que até os italianos, imagino eu, devem ter sentido uma vontade secreta de aplaudir.
Aos 86 minutos da final, o Brasil já vencia, já encantava, já dava sinais de que aquela seleção havia sido enviada ao México por alguma divindade especialmente apaixonada por futebol. Mas ainda faltava o toque final. Faltava a assinatura do artista no canto da tela.
Então aconteceu.

A bola chegou aos pés de Clodoaldo, que resolveu transformar o gramado do Azteca num salão de baile. Cercado por italianos, driblou um, dois, três, quatro. Não parecia um volante. Parecia um sujeito atravessando uma multidão sem derramar uma gota de café. A partir dali, a bola começou uma viagem turística pelo melhor endereço possível, os pés dos brasileiros.
Passou por Rivellino, Jairzinho, Pelé, Gerson, Tostão e voltou a circular como quem não tinha a menor pressa. Era uma seleção tão segura de si que parecia brincar com o tempo. Enquanto os italianos corriam atrás da bola, a bola corria atrás da perfeição.
E então ela encontrou Pelé.
Quando Pelé recebeu, o estádio inteiro pareceu prender a respiração. Há jogadores que enxergam o jogo. Pelé enxergava o futuro. Sem olhar para o lado, percebeu a chegada de Carlos Alberto Torres. O passe saiu limpo, simples, eterno. Daqueles passes que fazem parecer fácil algo que nenhum mortal comum conseguiria imaginar.
Carlos Alberto veio como uma locomotiva. Nem dominou. Nem pensou. Apenas acertou um chute que carregava a convicção de quem sabia estar participando de algo destinado à eternidade. A bola estufou a rede. O Brasil fez 4 a 1. A Itália tombou. E o futebol atingiu sua forma mais perfeita.
Havia ainda um detalhe delicioso nessa história. Aquele foi o único gol de Carlos Alberto Torres em toda a campanha do tricampeonato. O capitão, lateral direito de ofício, escolheu justamente o último ato da conquista para deixar sua marca. Como se tivesse guardado a assinatura para a página final do livro. E que assinatura. Naquele dia mágico, Carlos Alberto não finalizou como um defensor que aparecia de surpresa na área. Finalizou com a certeza de um centroavante, com a autoridade de quem sabia que estava carimbando o tricampeonato mundial do Brasil.
Décadas depois, jornalistas, jogadores, treinadores e a própria FIFA continuam apontando aquele lance como o mais belo gol coletivo da história das Copas. E é difícil discordar. Afinal, não foi apenas uma sequência de passes. Foi uma conversa entre gênios. Um acordo silencioso entre homens que pareciam saber exatamente o que os outros estavam pensando.
Talvez seja por isso que aquele gol nunca envelheça. Os uniformes mudam. As táticas mudam. Os estádios mudam. Mas aqueles poucos segundos continuam intactos, como uma obra de arte pendurada na parede do tempo.
E toda vez que alguém pergunta qual foi o mais belo gol coletivo das Copas, a resposta surge quase sem discussão.
Não foi apenas um gol.
Foi o futebol, por alguns segundos, brincando de ser perfeito.
Marcos Defreitas é jornalista formado na Universidade Estadual de Londrina e cronista convidado deste Portal






