
Por Marcos Defreitas
A Copa do Mundo de 2026 não ficará marcada apenas pela eliminação do Brasil. Derrotas fazem parte da história do futebol. O que ficará registrado foi algo muito mais preocupante: A indiferença.
Pela primeira vez em décadas, a Seleção Brasileira saiu de uma Copa sem provocar comoção nacional. Não houve lágrimas nas ruas, discussões intermináveis nos bares, mesas ocupadas até tarde tentando explicar o inexplicável ou aquele silêncio pesado que costumava tomar conta do país depois de uma eliminação. O Brasil simplesmente seguiu em frente.
Essa talvez seja a maior derrota da Confederação Brasileira de Futebol. Durante anos, a CBF transformou a Seleção em um produto distante do seu próprio povo. Jogos em estádios caros, amistosos em países escolhidos pelo mercado e uma sucessão de decisões desconectadas da paixão do torcedor enfraqueceram um patrimônio que sempre pertenceu ao brasileiro. Quando a Copa chegou, a camisa amarela já não carregava o mesmo peso emocional.
Nem mesmo a chegada de Carlo Ancelotti foi suficiente para mudar esse cenário. Um dos técnicos mais vencedores da história do futebol assumiu uma equipe sem identidade, pressionada e distante de sua torcida. Nenhum treinador, por maior que seja seu currículo, consegue reconstruir em poucos meses aquilo que foi desgastado ao longo de anos.
Dentro de campo, talento não faltou. Faltou liderança. Vinícius Júnior fez uma boa Copa e chegou às fases decisivas como um dos artilheiros da competição. Justamente por isso, sua postura na disputa por pênaltis contra a Noruega chamou a atenção. O Brasil jamais venceu a Noruega em toda a sua história. Aquela foi a quinta partida entre as duas seleções, com três empates e duas derrotas brasileiras. A eliminação apenas ampliou esse retrospecto incômodo. Na hora decisiva, Vinícius entregou a bola para Bruno Guimarães e abriu mão de assumir a cobrança. Não se trata de condenar quem perdeu ou quem preferiu não bater. Trata-se de compreender que a história costuma reservar seus maiores capítulos para aqueles que assumem a responsabilidade quando o peso da camisa parece insuportável.

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O futebol está repleto desses exemplos. Zico perdeu um dos pênaltis mais dolorosos da história da Seleção. Roberto Baggio isolou a cobrança que deu o tetracampeonato ao Brasil em 1994. Michel Platini também desperdiçou pênaltis decisivos ao longo da carreira. Kylian Mbappé perdeu cobranças importantes. Lionel Messi, em 6 Copas do Mundo, cobrou oito pênaltis e converteu apenas 4. Nenhum deles deixou de assumir a responsabilidade na oportunidade seguinte. O erro nunca diminuiu a grandeza desses jogadores. O que os tornou gigantes foi a coragem de continuar chamando a responsabilidade.
É justamente essa coragem que o torcedor espera dos seus líderes. Não a garantia de sucesso, porque ela não existe no esporte, mas a disposição de carregar o peso da decisão.
Talvez por isso a eliminação tenha provocado tão pouca dor coletiva. Não foi apenas porque o Brasil perdeu. Foi porque muitos brasileiros já haviam perdido a sensação de pertencimento muito antes do primeiro jogo da Copa. A Seleção deixou de ser um espelho do país para se tornar uma instituição distante, administrada como negócio e incapaz de despertar a emoção que durante décadas uniu gerações.
Pouco depois da eliminação, Neymar, Vinícius Júnior e outros jogadores apareceram usando grandes brincos de diamantes. A imagem correu as redes sociais. Para muitos torcedores, a ostentação soou como uma cafonice. Não pelo preço das joias, mas pelo contraste com o momento da Seleção. Enquanto o país discutia mais um fracasso em Copa do Mundo, a fotografia que ficou foi a da vaidade, quando se esperava autocrítica, liderança e respeito pela frustração do torcedor.
A camisa pentacampeã continua sendo uma das maiores do esporte mundial. A história permanece intacta. O talento brasileiro também. O que desapareceu foi algo mais difícil de recuperar. A identificação.
Brasil, Itália e Alemanha somam treze títulos mundiais. São mais da metade de todas as Copas disputadas desde 1930. Durante décadas, essas três seleções definiram os rumos do futebol mundial. Hoje, cada uma vive sua própria crise. A Itália sequer conseguiu disputar as Copas de 2018, 2022 e 2026. A Alemanha alterna reconstruções e eliminações precoces. O Brasil chega à terceira Copa consecutiva sem alcançar uma semifinal. O futebol mudou. A forma de formar jogadores mudou. A relação entre seleções e torcedores mudou. O Brasil precisa compreender essa transformação. E, antes de tudo, a CBF precisa entendê-la.
Porque títulos podem ser conquistados novamente. A confiança também.
Mas não existe derrota mais preocupante do que aquela que faz um país deixar de sentir a própria Seleção.
Material de referência geográfica
Marcos Defreitas é jornalista formado na Universidade Estadual de Londrina e cronista convidado por este Portal para a Copa do Mundo






