
Por Marcos Defreitas
Existe uma curiosa ironia no futebol que desafia a lógica dos gramados. O Brasil ostenta cinco estrelas no peito, mas encontra um desafio indigesto toda vez que cruza o caminho da Noruega. É um cenário intrigante, onde um país com uma população menor que a da cidade do Rio de Janeiro virou o oponente mais resiliente do futebol brasileiro, demonstrando uma eficiência tática que sempre complica a vida dos canarinhos.
Para quem gosta de analisar as estatísticas, a história dos confrontos mostra uma tremenda eficiência do lado europeu. São quatro jogos ao todo, com duas vitórias deles e dois empates, sendo que o Brasil busca quebrar esse tabu, já que ainda não venceu o rival no futebol masculino profissional. Cruzamos com a Noruega apenas uma única vez na história das Copas do Mundo, no mundial da França, em 23 de junho de 1998, onde, na verdade, fomos derrotados de virada por 2 a 1, com gol de Bebeto para o Brasil, enquanto Tore Andre Flo e Kjetil Rekdal, em cobrança de pênalti, viraram para os noruegueses. Nos outros três amistosos da história, os resultados foram um empate por 1 a 1, em 27 de julho de 1988, com gol de Edmar. Uma derrota por 4 a 2, em 30 de maio de 1997, com gols de Romário e Djalminha, além de um gol contra do zagueiro Gonçalves. E um último empate por 1 a 1, em 16 de agosto de 2006, com gol anotado por Daniel Carvalho, mantendo o equilíbrio histórico intacto.
Agora, neste ano de 2026, o reencontro nas oitavas de final traz um ingrediente de puro poder ofensivo com o atacante Erling Haaland. O centroavante tem apenas 25 anos e joga com a precisão de um atleta programado em laboratório, somando perto de 350 bolas na rede na carreira por clubes. Pela sua seleção principal, o retrospecto dele é ainda mais assustador, pois ele entrou em campo 53 vezes e já marcou 60 gols, garantindo uma média espetacular de mais de um gol por partida e se isolando como o maior artilheiro da história de seu país. Destes gols, 5 foram marcados justamente nesta edição do Mundial, ajudando a carimbar a vaga de sua equipe.
Para apimentar ainda mais esse reencontro, as oitavas de final vão transferir para os gramados americanos um duelo particular que já incendiou a Premier League na Inglaterra. Trata-se do choque de gigantes entre o atacante norueguês do

Manchester City e o zagueiro brasileiro Gabriel Magalhães, xerife do Arsenal. Nos clubes, a rivalidade entre os dois é pura combustão, com direito a Haaland jogando bola na cabeça de Gabriel em um empate por 2 a 2, o brasileiro dando o troco com comemorações efusivas na cara do rival na goleada dos Gunners por 5 a 1, e encaradas com direito a camisas rasgadas em abril deste ano. Gabriel, que acabou de se sagrar campeão inglês pelo Arsenal, conhece como poucos os caminhos para tentar frear o ímpeto do gigante de 1 metro e 95 centímetros.
Essa força também se reflete nas arquibancadas dos Estados Unidos, onde os escandinavos estão se consolidando como a grande sensação desta Copa do Mundo. Sendo o país uma potência histórica nos esportes náuticos, a energia do público nas arenas americanas herdou a sincronia perfeita das competições de remo. Em vez do batuque tradicional e desordenado, os torcedores cantam em um ritmo compassado e absurdamente vigoroso, que lembra remadores vikings puxando os remos em busca da vitória. Essa torcida embala o espaço coletivo e motiva a seleção com muita emoção, em um canto incessante que lembra bastante a energia da torcida corinthiana pelo apoio incondicional de um bando de loucos. É uma força coordenada que empurra o time e encanta os espectadores locais, enquanto os brasileiros tentam decifrar como uma nação de pouco mais de cinco milhões de habitantes consegue ser tão cirúrgica no gramado e tão contagiante na arquibancada. Depois de eliminarem a Costa do Marfim por 2 a 1, com um gol decisivo de seu camisa nove no finalzinho, os europeus chegam embalados por esse verdadeiro mar de apoiadores inflamados. Caberá a Gabriel Magalhães e ao ataque brasileiro mostrar que a tradição canarinho sabe como navegar em águas turbulentas e afundar de vez esse barco viking.
Marcos Defreitas é jornalista formado na Universidade Estadual de Londrina e cronista convidado por este portal para a Copa






