Primeiro de maio de 1994

0
44

Por Rogério Fischer

Cheguei em casa era alta madrugada. Estacionei o carro na garagem do sobradinho em que morava, na rua João Borges, que separa os jardins Tókio e Pinheiros, zona oeste de Londrina.

Era a única garagem coberta dos três sobrados geminados construídos pelo mesmo empreendedor. Não me atrevi a tentar entrar em casa. Não me atrevi, na verdade, a tentar abrir a porta. Desliguei o motor e no carro – um Voyage branco, placas 0354, ano 1984, que havia sido do meu tio Diomedes – fiquei.

Caí no sono.

Acordei era quase nove horas, por conta do sol que a partir lá dos lados do Limoeiro entrava por uma pequena cerca palito e esquentava o cocuruto e o lado direito do pescoço. Tentei erguer o corpo no banco do motorista. O pescoço doía, claro. Sem travesseiro, a posição era previsivelmente incômoda. Fiquei uns minutos ali dentro, tentando me recompor, a ressaca pegando pesado. Nenhum barulho dentro de casa. Não ia tentar entrar. Ainda.

A situação, porém, pedia alguma atitude. Saí do carro, abri o portão da garagem, ganhei a rua. Era umas nove horas de um feriado de primeiro de maio. Feriado, vírgula. Era domingo. A João Borges parada, movimento zero. É uma rua larga, talvez a mais larga daquela microrregião, mas nunca foi muito movimentada, talvez até hoje não seja, porque o povo do Tókio pegava o rumo do centro por baixo, pelo Igapó 4, e o povo do Jardim Industrial, do Jamaica e do próprio Pinheiros ia por cima, via Arthur Thomas. Não passava muito carro na João Borges. Talvez por isso a gente sempre topava com um gatinho morto.

Eles tentavam atravessar a rua achando que seria moleza e muitas vezes encontrava o destino na roda de um motorista incauto. Aconteceu com dois ou três da ninhada do Missinho, o sem-vergonha que, fiótão ainda, entrou no motor do meu Voyage numa tarde/noite em que, como sempre, o carro estava estacionado no antigo terminal de ônibus do centro, então desativado, à espera que eu saísse da redação da Folha de Londrina e fosse para casa, na Rua Taubaté, onde moramos durante todo 1989, ano em que o Jornal de Londrina nasceu, na outra ponta da rua. Depois de descoberto miando sem parar assim que cheguei, Missinho foi logo adotado. Na mudança para a João Borges, foi junto.

O desgramildo levou para dentro de casa, no Jardim Pinheiros, a primeira ninhada que teve com alguma gata do pedaço. Contrariou a natureza e ele, o macho, é quem levou a ninhada para casa. Uns oito, acho. Uns dois, pelo menos, ficaram estatelados no asfalto da zona oeste de Londrina. Lembro de, adulto, ter sobrado só o Osnar. Enfim, na tentativa de vencer aquela ressaca descomunal atravessei a João Borges à procura de uma padaria para encher o bucho e, assim, ter alguma arma mais eficiente para amenizar a ressaca. Comer sempre ajuda.

Não lembrava de nenhum padoca muito próxima. O Pinheiros estava em formação e havia pouco comércio. Frequentávamos mais a mercearia do… esqueci o nome dele e da esposa, um casal já velhinho, ele caminhoneiro, que abriu um comércio a 30 metros de casa. Mentira, o comércio já estava aberto quando nos mudamos para lá. Lembro o sobrenome, Ló, porquanto inusitado. Um casal legal, de boa, vivia na casa em anexo, com um puta quintal, com pomar. Não lembro os nomes, mas lembro das fisionomias. Certo dia, entram dois moleques no mercado vazio, anunciam assalto e, quando ele mexeu o braço para abrir a caixa registradora a fim de pegar a grana e entregar pros caras, levou um tiro – muitos acreditam que, cabaços, os moleques acharam que ele ia pegar alguma arma, e se assustaram. Puta tragédia do cacete. Tragédia ali, da microrregião. Tragédia que nem sai no jornal. Enfim, descambei pros lados do Tókio e numa rua achei um boteco aberto, boteco mesmo, de vila, e o Tókio até hoje é vila mesmo, com tudo de bom e ruim que uma vila tem. Muita boca de fumo, mais nas quebradas.

E ali onde fui era uma quebrada. É no Tókio onde fica a Nina Gardemann, escola onde Natália começou a estudar. Lembro que o Carioca, filho do Tio Mário e irmão do Apolo, teve um sacolão ali, na rua principal. Na mesma rua, íngreme, o pai do Pedriali teve um salão de barbeiro. Entrei no boteco, onde jamais havia estado, mesmo morando ali já havia alguns anos. Cumprimentei o dono e dois frequentadores com o fiado de voz que me restava. Dei uma olhada ao redor e vi uma dessas estufas de boteco, com um quibe e duas ou três coxinhas que se dissessem que haviam sido fritados naquela manhã estariam mentindo descaradamente.

Encarei o quibe com uma coca. Nada melhor que uma coca-cola gelada pra gente limpar a serpentina. Estava rolando, na TV, a Fórmula 1. Começo de prova. Fiquei ali, vendo a corrida e matando a fome. Vendo, não acompanhando atentamente, até porque naquele estado deplorável não dá para se fazer nada atentamente. Tinha tomado um golão de coca, levei o restante do quibe à boca quando ouvi alguém falar “vixe…”. Olhei para a TV e um carro rodopiava, espatifado. Logo reconheci o carro azul da Williams. Ninguém falava nada.

“É o Senna?”, perguntei.

Ninguém respondeu. Se respondeu, não ouvi. Ficamos quietos, vários minutos, acompanhando o desenrolar da coisa. O piloto não saía de dentro do carro. O socorro chegou, esbaforido. Cercaram o carro. O piloto não saía lá de dentro. E a coisa foi ficando grave, a voz do narrador cada vez mais desesperada. Acendi um cigarro. O primeiro daquele dia, um feriado de primeiro de maio, um domingo de F-1. Ficamos todos os quatro – eu, o dono, os dois frequentadores amigos do dono – com os olhos estatelados na televisão, velha e pequena, instalada no alto da parede do fundo do bar, de frente para a entrada. Acompanhamos o desenrolar da coisa. A desesperança. A fatalidade. A confirmação. Não lembro de ninguém ter falado nada. Paguei a conta e fui pra casa. Melhor encarar a realidade.

Deixe uma resposta