Pelada que é pelada

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Por Wilhan Santin

Para uma reunião de cavalheiros que jogam futebol ser considerada uma pelada, de acordo com a Organização Mundial para a Preservação de Valores Culturais de Machos que Não São Homofóbicos e Respeitam (muito) as Mulheres, é preciso que a mesma siga vários requisitos.

Diz a tal Organização que pelada que é pelada nunca terá um árbitro oficial ou alguém designado especificamente para exercer essa função. Pelada que é pelada tem faltas, laterais e escanteios decididos à base de muita discussão. E sempre haverá um dos jogadores que gritará mais alto, agindo como árbitro informal e tendencioso para o seu time.

Pelada que é pelada sempre terá entre seus participantes um atleta estressadinho e dado a chiliques, que arrancará o colete, jogará o mesmo no chão, pisoteará o pobre pedaço de pano e se sentará à margem do campo de jogo, dizendo, com beicinho: “não jogo mais.” Quatro minutos e dezesseis segundos depois ele estará jogando novamente, vestindo o colete que fora pisoteado um pouco antes.

Pelada que é pelada tem sempre um cara muito ruim, o último a ser escolhido, que só joga porque é amigo do pessoal, e que desequilibrará muito a peleja. Invariavelmente o time dele perde.

Pelada que é pelada tem cidadãos de boa estirpe que gostam de jogar no gol. São goleiros fixos. Nada de escalar qualquer um para exercer a função. Goleiros são sagrados.

Pelada que é pelada obrigatoriamente terá um sujeito muito habilidoso, que todos invejam e acham que poderia ter sido profissional. Ele sempre faz parte do time daquele cara muito ruim, para equilibrar. E se sente injustiçado por isso.

Pelada que é pelada é composta de alguns velhos, de alguns barrigudos e de vários velhos barrigudos. Entre eles, há garotos, filho de um, sobrinho do outro, vizinho do terceiro. É uma regra inalienável que algum dos jovenzinhos – ou todos – saia de campo com partes arroxeadas em seus membros inferiores.

Detalhe importante: os velhos sempre dirão esta frase para os meninos: “quando eu tinha a sua idade corria muito mais do que você corre.” Se isso não acontecer, a pelada não será uma pelada.

Por fim, pelada que é pelada tem cerveja depois do jogo e esposas bicudas quando o atleta, exausto, semi-etilizado e feliz retorna, combalido, ao lar.

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