Palavrão, a linguagem dos estádios

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Por Claudio Osti

Lá  nos idos de muitos idos atrás, falar palavrão em casa era um crime punido quase que como um crime hediondo (não se preocupem hediondo não é um palavrão, apesar da gravidade da palavra e do que ela significa. Se você não sabe o que significa a palavra hediondo, deixa de ser folgado e procure no dicionário).

Uma conversa, um deslize do garoto, um palavrão dito sem querer ou, mais corajosamente por querer, e lá vinha a reprimenda:

– Vou lavar sua boca com sabão feita com gordura de cachorro apreendido pela carrocinha…

– Olha a vara de marmelo seu moleque, vê se respeita a nossa casa…

Os tempos são outros, mas o palavrão, um ícone da cultura brasileira, continua sendo reprimido em casa, não se usa mais vara de marmelo (ainda bem, isso deve doer uma barbaridade), nem sabão feito de gordura de cachorro, para sorte dos vira-latas que não terão o triste fim de acabar limpando boca de menino mal-criado.

Mas, tem um lugar que palavrão‚ é quase uma obrigação. Não, não estamos falando das casas de massagem e boates de má-fama. Estamos falando de estádio de futebol.

Lá o palavrão tem vários objetivos e até sentidos. Ele é usado para saudar o árbitro quando este entra em campo. Neste caso, para aquecer a garganta, o coro geralmente ‚ é de “ladrão, ladrão”… Pode-se dizer que isso seria um chamego, um afago ao homem que irá conduzir os destinos da partida.

Se erra contra o time da casa durante o jogo, aí o palavrão muda de figura. O carinho acaba, lembram da mãe dele, e das suas preferências sexuais …

– Pai, eu não entendo. Lá em casa a gente não pode falar nada que vocês brigam com a gente. Aqui no estádio vocês falam palavrão…

– Filho, veja bem. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa… entendeu?

– Ah! Não entendi, mas o senhor podia repetir aquele último palavrão, que eu não anotei…

– O que‚ isso filho, você está anotando os palavrões?

– Estou, mas é por uma boa causa…

– Que causa ‚ essa?

– Sabe o que é pai, eu quero decorar para depois usar com os meus amigos da escola, sabe como é né, a gente precisa aprender coisas novas… Por falar nisso o que é obtuso?

– Pelo jeito obtuso sou eu, mas não é palavrão filho…

Tem também o palavrão de incentivo ao jogador que não está se empenhando em campo.

– Vai na bola seu F.D.P. (numa tradução livre para não chocar os pequenos que leem a coluna: Filho De uma Prestativa senhora).

–  Vá  buscar sua mãe na Zona… (azul, estacionando o carro)

– Seu, seu, seu … dirigente esportivo…

– Êpa, não precisa apelar, aí também não…

Palavrão em estádio é igual a espetinho de gato, cerveja quente, vendedor ambulante, faz parte do contexto.

Mas em casa não, senão olha o sabonete para lavar a boca.

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