Pai conta a história de Igor Miranda, o nosso Chico Bento

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Por Rogério Fischer

Vamos falar baixo porque ele não gosta muito do apelido: Chico Bento, aquele mesmo, das estórias em quadrinhos, que anda descalço, usa chapéu de palha e adora pescar com o pai. É com esse qualificativo que Igor Miranda, lateral-esquerdo do Londrina Esporte Clube, é tratado em Caraguatatuba, no litoral norte de São Paulo, onde passou a morar a partir dos seis anos de idade. É Chico pra cá, Chico pra lá, principalmente nas ruas, botecos, mercados e padarias do bairro de Massaguaçu, em cujo campo o garoto começou a exibir as habilidades que o transformaram em jogador de futebol profissional.

E ele gosta do apelido?

É o próprio pai, com a simplicidade – e sinceridade – de um homem do campo, quem entrega:

– O apelido vem de escola. Ele não briga, mas não fica muito satisfeito não.

A cidade em que Igor Miranda surgiu para o futebol fica no mesmo Vale do Paraíba que inspirou a criação do personagem de Maurício de Souza. E foi em Caraguá que, segundo Lúcio, o professor Afonso, da escolinha de futebol da prefeitura, vaticinou:

– Esse moleque vai virar boleiro.

Guardião da orgulhosa sala de troféus conquistados pelo time de Massaguaçu, hoje quase todos tenham sido consumidos pelo zinabre, professor Afonso anteviu um futuro profissional naquele moleque canhoteiro, habilidoso, espigado, rápido, driblador.

E foi quem sugeriu a ele a posição, lateral-esquerda, na qual brilhou desde muito cedo e que o levou, depois de muitas batalhas, a o Tubarão, para as disputas do Campeonato Paranaense, Copa do Brasil – da qual o LEC já foi eliminado – e a Série B nacional.

Igor dos Santos Miranda nasceu em 1996, em Uberaba, no Triângulo Mineiro. Tem dois irmãos: Milana e Hugo, além de uma meia-irmã, ainda bebê, do segundo casamento do pai, com quem ficou, após a separação.

Quem nos conta a trajetória de Igor no futebol é Lúcio Dias Miranda, de 51 anos, que recebeu a reportagem de Você Esporte Clube – regada a vinho e uma grande dose de emoção – na casa de Antônio Santiago e Malu Pedarcini, pés-vermelhos que há anos decidiram viver no “Paraíso”, como eles definem Caraguatatuba.

Natural de Alto Araguaia (MT), divisa com Goiás, Lúcio Miranda, recém casado, mudou-se para Uberaba na cola do sogro “cigano”, como ele diz. Criado na área rural até os 14 anos, Lúcio gostava muito de jogar bola. Era um meia-direita “não tão habilidoso como o Igor, mas raçudo”, que apesar da contrariedade do pai vivia batendo bola nas fazendas da região, ao ponto de chegar a apanhar mais de uma vez no mesmo dia.

Era um tempo em que Lúcio nem dormia às vésperas de um jogo. Mesmo no começo da adolescência, já integrava o time de marmanjos. Cada fazenda tinha o seu time, e o pega era geral. Lúcio saía de casa de madrugada e andava quatro léguas para jogar, por exemplo, na Fazenda do Caiana.

É com um nó na garganta e os olhos marejados que ele conta:

– Quando meu pai descobria, ia a cavalo me buscar no campo. Me batia lá mesmo, e de novo em casa.

“Enjoado de apanhar”, Lúcio virou “gato” aos 17 anos. Arregimentava peão para quebrar cerrado e abrir lavoura para donos de terra. Casou-se. O sogro picou a mula para Uberaba (MG) e, por insistência da esposa, foram atrás. Trabalhou dois anos em um frigorífico e, depois, ganhou dinheiro vendendo fitas-cassete piratas nas cidades da linha Uberaba-Ribeirão Preto, “onde fiz grandes amizades”.

Segundo Lúcio, foi nessa época que Igor, o filho do meio, começou a mostrar que iria gostar de futebol.

– A gente morava na travessa de uma avenida muito movimenta e, quando a gente esquecia o portão aberto, ele saía em disparada e passava no meio dos carros para entrar num armazém que ficava em frente. O Igor tinha uns seis anos. Só que ele não ficava lá olhando bala, doce, nada disso. Ele gostava de bola, daquelas de plástico. Pegava não uma, mas um monte de bola e levava pra casa. Eu ficava com dó de tomar dele, ia no mercado e pagava. Nossa casa ficava cheia de bola de plástico, que nem bexiga em festa de aniversário.

No Triângulo Mineiro, Lúcio Dias Miranda trabalhou também na Minasgás, como motorista, envazando o produto em Ribeirão e distribuindo-o em muitos municípios de Minas e Goiás, até que o sogro cigano decidiu voltar para Alto Araguaia, a fim de abrir um restaurante, e Lúcio, mais uma vez a pedido da esposa, foi atrás.

Daí o sogro bateu em Caraguatatuba, com a filha e os netos. Lúcio ficou no Mato Grosso. No litoral, o sogro produzia e vendia pamonha, até que deu um ultimato no genro:

– E daí, vai morrer sem conhecer a praia?

Lúcio conta que foi para Caraguatatuba, da qual nunca tinha ouvido falar, para passar uns dez dias. Conseguiu emprego na cozinha de um quiosque beira-mar e ficou. Depois, foi porteiro do próprio loteamento onde morava. “Pegou conhecimento” com os donos de terrenos e, com o segundo grau enfim concluído, virou corretor, atividade que exerce até hoje, junto com as de jardineiro e piscineiro do mesmo condomínio, num “sovaco de serra” no bairro do Massaguaçu.

Enquanto se aprumava na vida, Lúcio apoiava como podia o sonho de Igor em virar jogador de futebol. A primeira aventura do garoto, então com onze anos, foi em São Paulo. Igor ficou um ano treinando no Morumbi; Lúcio o levava e buscava toda semana. A aventura terminou por conta do Estatuto da Criança e do Adolescente, e Igor voltou para Caraguá e passou a integrar o time dos nascidos em 1996 de Massaguaçu que fez história no Vale do Paraíba.

Lúcio se recorda de um amistoso que a molecada fez com o Palmeiras – lembranças que ele guarda em vídeo.

– O Igor marcou um cara que era o dobro dele. Fez o negão dançar na boca da garrafa, com o drible da ema. Deu um samba no cara, deixou ele caído, entrou na área e só não fez o gol porque pegaram ele no tornozelo.

Drible da ema, Lúcio?

– É. Já tentou pegar uma ema? Ela faz que vai pra lá, vai pro outro lado e deixa você no chão. O Igor tem facilidade para balançar o corpo, faz igualzinho.

Daí foi aquela sucessão de idas e vindas comuns a quase todo garoto em busca de um lugar ao sol. Chegou a treinar no Flamengo, onde não ficou, segundo o pai, por ter sido preterido em favor de outro garoto, “com empresário”.

Um olheiro o levou ao CFZ, por quem disputou uma Copa Zico. Passou por Audax, em São Paulo, e pelo São José, de São José dos Campos, até ser levado para a Espanha, onde treinou na base do Atlético de Madri. Machucou-se e voltou para casa.

Em Caraguá, conta Lúcio, Igor disputou um torneio regional e um olheiro o levou para o PSTC. Pelo Paraná Soccer Technical Center, clube fundado em Londrina por um grupo de descendentes nipônicos para revelar jogadores e que armou time profissional por exigência da lei, mudando-se para Cornélio Procópio, Igor disputou o Campeonato Paranaense de 2016. O PSTC surpreendeu e disputou a Final do Interior contra o próprio Londrina.

Revelação do PSTC no Estadual, Igor Miranda foi contratado pelo gestor do LEC, o empresário Sérgio Malucelli, com quem firmou contrato de três anos. A chegada ao Tubarão representa, para o jogador, um degrau importante na carreira; para o pai dele, um marco histórico.

– Até a data em que foi para o Londrina, o Igor não deu um passo sem que eu tivesse de levá-lo.

Igor mora em Londrina com a namorada, Victória, de uma família dona de loja de artigos esportivos em Caraguatatuba. O início, em meados de 2016, após o Paranaense, foi difícil: contundido no púbis, o lateral teve de passar por um período de recuperação até que pudesse estrear na Série B. Participou da campanha que por muito pouco não levou o LEC à Primeira Divisão – o time ficou em 6º lugar, três pontos atrás do 4º colocado e último a subir.

Com a volta de Leo, o titular, para o Fluminense, a expectativa geral era de que, enfim, Igor Miranda tivesse oportunidades no time de Cláudio Tencati. Começou bem a temporada, mas o time naufragou logo na primeira rodada da Copa do Brasil, ao ser derrotado pelo Gurupi, em Tocantins. Embora Igor tenha sido considerado um dos melhores em campo, o grupo todo – comissão técnica inclusa – sofreu com a ira da torcida, que não economizou palavrões e alguns chega-pra-lá ao recepcionar a delegação no aeroporto.

Igor voltou à reserva, não tem sido aproveitado por Tencati nos últimos jogos do Paranaense-17. E o pai, que ainda não o visitou em Londrina, sabe que ele anda meio cabisbaixo.

– Peguei raiva, nem to vendo mais os jogos pela TV. Vejo nas fotos que ele anda meio de cabeça baixa. O Igor é muito humilde, muito religioso, garoto sossegado, amigo de todo mundo. O Gava (armador da equipe) esteve aqui em casa no final do ano, fizeram uma bagunça danada, jogaram o Igor na água.

E completa:

– Ele deve estar injuriado, nunca foi de pegar banco.

Lúcio Miranda acredita no potencial do filho e cobra uma sequência de jogos para ele poder mostrar sua capacidade:

– Sempre falo pra ele: tem que ir pra cima. O Igor pode chegar ao nível de qualquer bom jogador. Tem muita qualidade, só está faltando oportunidade.

Além de retomar a vaga no time titular, o desafio de Igor Miranda, aos 20 anos, é fazer seu futebol explodir positivamente, para fazer jus à confiança que, segundo o pai, todos depositam nele na Caraguatatuba onde cresceu.

– Aqui ele é rei!

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