O goleiro

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Por Wilhan Santin

O melhor dos meninos do time da rua de cima deu um chute forte, de bico, lá de longe, do meio do campo. Ele era um menino dois anos mais velho do que a média da turma, fato que o colocava na condição de praticamente um craque.

Mas o meio do campo, demarcado na pracinha do bairro, entre árvores e bancos de concreto, parecia tão distante para os padrões daquelas crianças entre dez e doze anos de idade que era uma obrigação para o goleiro defender, espalmar a bola, fazer qualquer coisa que não a deixasse passar pelo meio dos dois pedaços de bambus espetados no chão.

Quem fizesse dez gols primeiro ganhava. E o placar estava nove a oito para o time da rua de cima. Se fosse gol, seria mais uma derrota do escrete da Rua Parecis. A quinta em cinco jogos. A quinta em cinco jogos! A quinta em cinco jogos! A quinta em cinco jogos!

A contabilidade das derrotas ficou ecoando na cabeça do goleiro Gabriel enquanto a esfera viajava na direção do gol. Era dele a responsabilidade, e que responsabilidade, de evitar mais uma derrota, mais um vexame, mais uma humilhação. Defendendo aquele chute, ele daria ao seu time a chance de continuar lutando. Eles estavam tão pertos de empatar, de chegar ao nove a nove. Se empatassem, fariam dez primeiro, ele tinha certeza disso.

E a bola viajava, rápida, em sua direção. O que fazer? Encaixar? Espalmar? Ela ganhou altura depois que saiu do pé direito daquele moleque enorme. Subiu e agora vinha caindo, na direção do gol. Chegaria baixa até o gol. Abaixar e ir com a mão? Tentar defender com o pé? As frações de segundos pareciam minutos. A bola custava a chegar. Os companheiros de time davam gritos de incentivo. “É sua, Gabriel.” “Vai, Gabriel.” “Tem que defender! Tem que defender.”

Os apelos dos amigos misturavam-se à indecisão do goleiro. Com as mãos ou com os pés? E a esfera chegou, como se fosse um foguete, como se fosse um cometa, uma estrela cadente caindo, caindo, caindo, na direção de Gabriel, que via a bola oscilando de tamanho, enxergava-a turva, de um jeito esquisito, culpa dos oito graus de hipermetropia e astigmatismo que ele tinha nos dois olhos e lhe embaçavam a visão.

O goleiro fazia esforço para enxergar bem, para executar o melhor momento para a defesa. Decidiu que o certo seria abaixar e defender com as mãos, esfolando os joelhos na terra da pracinha. O gol era o único lugar onde não havia grama.

Porém, quando decidiu, era tarde demais. Enquanto executava o movimento de se ajoelhar, a bola passou, feito raio, pelo meio das pernas dele. Não há vexame maior para um goleiro do que levar gol pelo meio das pernas. Ainda mais de um chute que veio do meio do campo. Ainda mais contra o time da rua de cima. Ainda mais quando era o último gol do jogo! Ele teve vontade de chorar, mas não podia demonstrar tamanha fraqueza.

Levantou-se esbravejando, xingando o Deco, que não havia marcado corretamente o menino mais velho do outro time, deixando que disparasse aquela bomba. Esbravejou com o Rodrigo, o zagueiro que poderia ter entrado na frente da bola. Mas caiu na real quando Xandão, o mais velho da Rua Parecis, veio até ele e disparou: “da próxima vez você joga de óculos.”

*Este texto é parte do livro juvenil “O fabuloso escrete da Rua Parecis”, que será lançado em 2020.

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