O Brasileirão é mesmo o Campeonato mais disputado do mundo?

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Atual campeão, Palmeiras recebeu a taça e fez 4 a 0 na estreia do BR19 (Foto: Cesar Greco/Ag. Palmeiras/Divulgação)

Por: Guilherme Bernardi

Neste último final de semana de abril, começou o Campeonato Brasileiro de 2019 e, como esperado, já foi possível ouvir as primeiras frases do tipo: ‘Campeonato mais disputado do mundo’ e ‘12 times brigando pela Taça’. Normal para quem vive no Brasil ouvir esses comentários, mas será que corresponde à realidade atual?

O Brasileiro é realmente o mais disputado campeonato do mundo? Acho que depende da ótica da análise. Realmente a quantidade de times que entraram com condições de disputar ele é maior do que o comum nos principais torneios do mundo. Se aqui geralmente colocamos no mínimo 3 times como candidatos reais ao título todos os anos, em várias ligas europeias esse número fica na casa dos 2 ou, no máximo, 3. Pensando nos últimos anos, eles são: City, Liverpool e Chelsea na Inglaterra; Dortmund e Bayern na Alemanha; Barça, Real e Atlético na Espanha. Em outros, o domínio é mais exclusivo, vide casos de PSG na França (apesar do Monaco ter ganho em 16/17, hoje o domínio é gritante por parte do PSG e o clube do principado briga contra o rebaixamento) e Juventus octacampeã na Itália. Ponto para o Brasil, nesse caso.

Acho, entretanto, que a pergunta que deve vir atrelada à primeira é: isso faz do Brasileirão um bom campeonato ou com nível igual ou mais alto do que as ligas europeias? Para essa pergunta, minha enfática resposta é que não e que estamos muito distantes das principais ligas em termos de qualidade – vide por exemplo o nível técnico dos jogos, mas também os percentuais de aproveitamento dos clubes campeões, além do número de gols marcados e de vitórias.

A questão é que futebol tem um componente central que é a paixão, a conexão das torcidas com os clubes e os sonhos de milhares de jovens (jogadores ou torcedores). Emoção, jogos tensos e elétricos e os clubes pelos quais nos apaixonamos em campo. Essa mistura gera uma vontade de ver os jogos, torcer e vibrar. Nisso acho que o Brasileirão é único e sempre será para nós (brasileiros), mas não quer dizer que o é para o mundo todo. É preciso, por exemplo, que admitamos que o nível técnico é baixo e o equilíbrio também é nivelado por baixo.

Além disso, precisamos parar com os ‘12 clubes que entram com chances de ser campeão’. Há uma tentativa de colocar os 12 grandes num patamar do passado em que era possível que eles sonhassem todos os anos com títulos (e talvez os Estaduais sejam os responsáveis por manter esse sonho vivo ainda hoje), mas isso não é verdade em nosso momento atual. Quais clubes entram com condições de ganhar o Brasileirão 2019, por exemplo? Flamengo, Palmeiras e Grêmio são sempre lembrados. Cruzeiro? Talvez. Mas e os outros 8 grandes? Alguém realmente acha que Vasco, Botafogo e Fluminense, para ficar só no Rio, têm chances de buscar a taça?

Para mim, qualquer um fora dos quatro citados acima que eventualmente for campeão será uma zebra, mas principalmente uma prova da incapacidade dos times mais qualificados conquistarem os pontos e o campeonato. Com essa mítica ilusão de que temos 12 times grandes com chances todos os anos, naturalizamos partidas mal jogadas, times com muito mais qualidade jogando na retranca ou se amedrontando/segurando resultados quando deveriam ganhar sem maiores problemas, e também achamos bonito que clubes sem planejamento ou até mesmo que remontem elencos no meio do ano, troquem de treinadores várias vezes, encaixem uma sequência boa e, aproveitando o nível baixo dos demais, sejam campeões.

Apontar essas deficiências não muda o fato de que o Brasil ainda pode ser considerado o país do futebol, se esse é o problema ou o receio. O maior exemplo disso são os jogadores brasileiros, que ainda se destacam nas principais ligas europeias (raras exceções permanecem aqui), mas também e principalmente o desempenho nas Copas do Mundo. É claro que queremos ganhar todas elas, mas, analisando os últimos desempenhos, podemos e devemos destacar que somos a única Seleção que chegou entre os 8 em todos as Copas desde a derrota para a Argentina em 1990, nas oitavas daquela edição. São 7 edições seguidas nas quais ficamos entre os 8. Dessas 7, ganhamos 2, jogamos outra final e mais uma semi. É muita coisa.

Tudo o que não precisamos é ficar buscando exaltações onde elas não existem e coisas boas (equilíbrio e disputa por baixo) em coisas que não são. Admitir as limitações é o primeiro passo para pensar em formas de melhorar as coisas. Creio que o primeiro passo é admitir que o nível do Brasileirão é baixo no geral, mas também que é preciso cobrar quem pode dar mais – por elenco, dinheiro e sequência de trabalho (3 coisas importantes nos campeões europeus). Palmeiras, Flamengo e Grêmio, por exemplo, estão jogando o que podem e vão pontuar de acordo com o que podem em 2019 ou vamos achar bonito e valorizar tropeços deles contra adversários mais fracos e achar que isso faz do Brasileirão o campeonato mais disputado do mundo?

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