eSports são esportes? Um debate e uma reflexão

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por Walace Soares de Oliveira*
Após a declaração da nova ministra do Esporte Ana Moser sobre o eSports, em uma entrevista ela afirmou considerar o eSports como “uma indústria de entretenimento ao invés de esporte tradicional”. A polêmica instalou e está movimentado as redes sociais. Creio que precisamos primeiro ouvir a entrevista toda, e assim analisar a fala dela e contextualizar de forma adequada ao invés de pinçar uma fala da entrevista e polemizar.
A pergunta do repórter Demétrio Vecchiolli, foi em relação ao investimento público e de políticas públicas sobre o incentivo do ministério do esporte em relação ao eSport. Ele declarou ter iniciado a prática do eSport como opção durante a pandemia. Aliás, o que gerou risos em todos e iniciou a polêmica com a ministra. Justamente, por isso ele queria uma definição sobre se o eSports teria incentivo público ou não no ministério do esporte na atual gestão.
Primeiro, como o próprio Demétrio colocou, a intenção dele é ampliar o debate, pois já existe esse tipo de financiamento público em algumas esferas públicas, principalmente a municipal, e citou como exemplo a cidade do Rio de Janeiro. Todo debate em uma democracia é importante e necessário, principalmente quanto uma legislação e atuação pública serão determinantes. Pois, é a lei que regulamenta a nossa atuação, direitos e deveres sobre tudo. O Estado tem a obrigação de obedecer a lei, ser transparente e responsável com o investimento público e bem claro em suas ações de políticas públicas. A época de “sigilos de cem anos e falta de debate” terminou, devemos voltar à pratica de deliberar com todos os setores da sociedade civil os temas importantes que atingem a todos.
Segundo, a ministra deixou bem claro que a nova legislação ainda não está em vigor e será implantada nesse ano. Além disso, ela fez parte do debate da lei, que na legislação estava de forma muito ampla e poderia colocar o eSport como esporte. Além disso, ela se declarou parte do grupo que defendeu a exclusão desse formato amplo que colocaria o eSports como esporte, por não o considerar dentro da definição raiz que deveria nortear as políticas públicas que orientam a atuação do ministério. Creio que os interessados no tema também deveriam ter participado e feito o seu lobby, como acontece em todos os projetos de leis. Infelizmente muitos movimentos lobistas distorcem a realidade e a lei é promulgada sem o devido estudo ou debate e mais pela capacidade e organização desses lobbys, precisamos refletir sobre isso.
Terceiro devemos observar que ela respondeu sobre a lei que entrará em vigor e que está no Congresso, a referência ainda é a Lei Pelé de 1998, portanto defasada em relação a realidade do conceito de esporte e tudo ligado a ele. Da mesma forma, devemos observar que em sua resposta tudo que é público tem que seguir primeiro a legislação, sem esse critério o conceito de política pública corre o risco de não ser executado ou incentivado pelos órgãos públicos que são os responsáveis dessa organização e gestão. Afinal. O dinheiro público tem que ser gerido com responsabilidade e eficiência. E o resultado deve ser seu benefício que atinja a maior parte da população e principais necessidades.
Não esquecendo que vivemos num país da desigualdade social, e o acesso à tecnologia é um dos abismos sociais que traduzem a realidade. Não podemos esquecer que nossas vidas estão cada vez mais na palma de nossas mãos com serviços públicos em plataformas digitais, principalmente nos smartphones. E não temos acesso a internet de qualidade nas escolas, no campo e para todos de forma geral para incentivar tudo que nos conectada em rede e que cada vez mais faz parte do dia a dia. Porém, devemos recordar que a maioria das crianças brasileiras não tinham acesso à internet, celular ou computadores na pandemia para as aulas híbridas, que a é uma realidade que aumenta a desigualdade social, os professores não têm equipamentos e acesso de qualidade de internet e a preparação se fez durante a pandemia a toque de caixa. A propósito ainda não tem. Vivemos a época da exclusão digital.
Creio que as principais indagações deveriam ser: qual será a proposta para atualizar o país na questão do acesso digital, de inovação e tecnologia como ferramenta? Como esse instrumento será abordado para o nosso desenvolvimento como nação e contra a desigualdade social e digital? Proponho que o debate feito de forma simplista se o eSports é ou não um esporte esteja nessa proposta de debate em relação a todos os temas do mundo virtual.
Como cientista social gostaria de continuar minha reflexão como o querido prof. Pasquale costuma fazer em suas explicações, vamos ao dicionário, de preferência o HOUAISS (concordo com ele, é o melhor que temos). Lá está registrado a seguinte definição de esporte, como sendo um conjunto de “exercícios físicos” que se apresentam sob a forma de competições (individuais e coletivas) cujo a prática obedece a regras. E isso orienta o trabalho do ministério do esporte em que as contas públicas foram saqueadas na última gestão e ainda não temos como saber o que temos como orçamento básico para todos. Contudo, sabemos que o ministério deve seguir a legislação.
Além disso, passamos a maior parte de nossa história em transições lentas, e a utilização da tecnologia e seu acesso foram fatores significativos nos dois últimos séculos nesse processo que ainda se encontra em curso. Inicialmente essas transformações marcaram o século XIX e a Revolução Industrial, juntamente com o acesso em massa a todas elas. E na última década do século XX e as duas primeiras do século XXI, a transição do digital para o real, que ainda está acontecendo influenciada pelas Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs), acontece numa velocidade muito maior que podemos nos adaptar. Assim sendo, minha opinião como estudioso da sociedade, é que não podemos mais nos pautar por essa definição, pois a sociedade vive uma constante transformação em todos os sentidos.
Se refletirmos que antes do eSport ser chamado assim, ele já engatinhava como competição no Vale do Silício. Com o primeiro registro de competitivo nessa área, que aconteceu na Universidade de Stanford, em São Francisco no ano de 1972, e ficou conhecido como “Olimpíadas Intergalácticas de Spacewar”, do jogo eletrônico Spacewar (um dos primeiros jogos de computador), como prêmio uma assinatura da revista Rolling Stones. Recordando que São Francisco é capital do Vale do Silício e terra de Steve Jobs, e ele apresentou junto com seu sócio na Homebrew Computer Club da própria universidade de Stanford a ideia que revolucionou o mundo, o computador pessoal.
Ademais, em 1980 a ATARI, que coincidentemente Steve Jobs trabalhou, organizou o Space Invanders Championship com aproximadamente 10 mil participantes nos E.U.A., dali em diante as competições de jogos eletrônicos não pararam mais. E atualmente, com a velocidade, evolução e transformação que descrevi acima sobre essas tecnologias, em especial nos últimos trinta anos, e insisto na urgência de avaliarmos o ressignificar do conceito de esporte. Aliás, como já estamos fazendo ao ressignificar os conceitos de relação, comunicação e tudo que está em nossa volta.
Ou seja, o impacto social de tudo relacionado ao mundo virtual, é relevante e cada vez mais impactante em nosso cotidiano, alterando costumes, cultura, relações e tantas coisas em nossos hábitos e em nossas vidas. Portanto, o conceito de esporte em minha opinião deve ser amplamente debatido e refletido justamente por esses fatores. Ressaltando que tudo referente ao mundo virtual, também não tem uma legislação atualizada para o mundo real, e não podemos ficar nesse limbo jurídico. E a ministra ressaltou, que isso deve ser levado em consideração por demandar ações de ordem pública e prioridades de gestão. Não significa que concordo com ela, porém entendo em parte sua preocupação. Porém, temos que ter responsabilidade e estabelecer prioridades de ação de gestão e governança em todas as áreas.
Seu filho vai jogar mais FIFA e pedir um Playstation que uma bola ou um carrinho, isso não significa que é melhor ou pior, devemos compreender que vivemos outra época e um outra estrutura de mundo. Eu ainda prefiro suar a camisa numa quadra e acredito que quando nos juntamos ao vivo para qualquer esporte, diversão ou mesmo que seja só para jogar conversa fora, a socialização real é muito mais saudável em todos os aspectos que a virtual. Mas, essa é a minha opinião, não é a realidade das atuais gerações. Aliás, eu vi Pelé jogar numa televisão em preto e branco, porque ainda não havia televisão colorida, outros tempos. E as crianças de hoje só sabem que ele morreu, não reconhecem a sua importância e para elas o maior jogador da história é Messi ou Cristiano Ronaldo, justamente por causa do formato do mundo que vivemos.
E para finalizar, não podemos deixar de ressaltar todos esses fatores tão significativos, que compõe o processo de ressignificação que vivemos hoje em vários conceitos, portanto o esporte faz parte e tem uma abrangência importante nesse debate. E que o eSport é um mercado bilionário em desenvolvimento e inovação de equipamentos, jogos, softwares, aplicativos e competição com milhões de praticantes, que logo terão o status de estrelas no mesmo nível de qualquer esporte e com ganhos equivalentes. A sociedade não é estática, e como já cantava o grande Raul Seixas, que está cada dia mais atual “eu prefiro ser essa metamorfose ambulante do que ter a velha opinião formada sobre tudo”. Então bora refletir, debater e tocar a vida em frente.

Walace Soares é Cientista Social pela UEL/PR, Mestre em Educação pela UEL/PR, Doutor em Ciência da Informação pela USP, prof. de Sociologia do IFRO e Colunista CBN/PVH.

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