Bota ponta, Renato Gaúcho!

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por Luciano Maluly

Tele Santana e Luciano Maluly. O técnico, quando na Seleção Brasileira, era fustigado por humoristas a colocar ponta na equipe canarinho

Logo nas primeiras rodadas do Campeonato Brasileiro de Futebol Masculino e da Copa do Brasil 2020 (2021), percebi um toque diferente dentro de campo. Meus colegas chegaram a dizer que poderia ser fruto do entusiasmo causado pelas conquistas do Campeonato Brasileiro e da Taça Libertadores da América pelo Flamengo, comandado pelo português Jorge Jesus, em 2019.

No começo do torneio nacional, fiquei até empolgado quando os times do Vasco da Gama e do Botafogo, comandados respectivamente por Ramon Menezes e Paulo Autuori, começaram a importunar os chamados favoritos ao título. Lembro até de uma ótima frase de um comentarista da SporTV: “É o melhor futebol sem resultados do país”. Esses clubes cariocas estavam capengando, mas jogando um futebol aberto e até vistoso. Lembravam os velhos e bons tempos dos pequenos times do interior e do subúrbio carioca que, às vezes, incomodavam os grandes da capital com times montados por garotos da base e veteranos.

Mesmo irregular, até o Palmeiras de Wanderley Luxemburgo alegrava, em parte, os amantes do futebol, especialmente devido ao surgimento de talentos como Patrick de Paula e Gabriel Menino, que foi até convocado por Tite para a seleção nacional. Fernando Sabino diria: “Quando eu era menino, os mais velhos perguntavam: o que você quer ser quando crescer? Hoje não perguntam mais. Se perguntassem, eu diria que quero ser menino.”

Contudo, como gaguejam os desentendidos: “futebol é resultado”. Sendo assim, nada mais triste que os cartolas brasileiros para comandarem a limpeza geral e dispensarem os ousados técnicos.

Botafogo e Vasco se deram mal e caíram para a Série B, a segunda divisão do campeonato brasileiro. Só o Palmeiras se saiu “bem” conquistando a Taça Libertadores da América e a Copa do Brasil.

Os palmeirenses estavam tão exaltados após a vitória de três a zero contra o River Plate na Argentina que até me arrisquei a acompanhar alguns jogos do Verdão.

Dei azar e assisti duas partidas em que o time foi completamente dominado pelos adversários, com derrotas para os argentinos no jogo de volta, por dois a zero, e para o Tigres (México), por um a zero, nas semifinais do Mundial. “Aí, Jesus!”, choravam os torcedores em tom de brincadeira com o também técnico português Abel Braga.

Toque Toque

Deixe-me retornar um pouquinho no tempo para vocês entenderem a situação. O líder do Brasileirão era o São Paulo Futebol Clube, que também estava na semifinal da Copa do Brasil e, com isso, houve um assanhamento dos saudosos torcedores tricolores, que chegaram a prever o renascimento de um novo Telê Santana. Alguns deles ficaram me cutucando para acompanhar uma partida do escrete tricolor comandado por Fernando Diniz.

Dei azar de novo quando resolvi acompanhar a partida de volta da semifinal contra o Grêmio. Um jogo horroroso, de dois toques e sem criatividade, com 70% de posse de bola tricolor. Uma partida que só poderia terminar sem gols.

Logo, comecei a acompanhar outros jogos do Brasileirão e percebi que o futebol de campo virou futsal. Para quem acompanha a modalidade nas quadras, a atual filosofia de jogo se assemelha à ideia do goleiro linha. A tática é que os jogadores toquem a bola rapidamente em um ou dois toques na tentativa de abrir espaços para um arremate final. O problema é que, na maioria das vezes, o adversário está com a defesa postada, como fez o Grêmio contra o São Paulo e o Palmeiras (durante a final) na Copa do Brasil. Sendo assim, o jogo fica monótono e sem objetividade.

Como dizem os amantes do futebol-arte: “alguns dribles e chutes a gol resolveriam a questão”. Por isso, solicitamos aos “professores” de futebol que ensinem e apliquem essas duas técnicas aos seus atletas, porque são ferramentas letais para o sucesso em campo.

Ainda não é o fim do futebol

Quando batia o desespero de torcedor apaixonado e isolado, eu ligava a televisão em busca de uma partida do Juventude de Caxias do Sul (RS) com o objetivo de encontrar a sutileza dos lances de Renato Cajá, atualmente jogando pela Ferroviária de Araraquara (SP).

Para encerrar, deixo uma mensagem: “Bota ponta, Renato Gaúcho!”, uma homenagem aos mestres Jô Soares e Telê Santana, a quem tive a honra de entrevistar em 1987. Quem tem a minha idade entenderá essa frase e a preocupação em devolver um pouco de beleza ao futebol brasileiro.  

Luciano Maluly é professor de jornalismo esportivo na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. E-mail: [email protected]

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