A torcida comunista no Bar Brasil

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Histórias do Arnaldo (política & futebol)

Por José Luiz Cerveira Filho

Jovens universitários, rebeldes e comunistas reúnem-se no Bar Brasil para assistir a primeira partida do selecionado nacional na Copa do Mundo do México. O jogo seria contra a antiga Tchecoslováquia, mesma adversária da final do bicampeonato em 1962. A garotada, é claro, torcia para a equipe da cortina de ferro, pois se uma seleção comuna vencesse ficaria mais fácil compor o verbo sobre a derrocada do capitalismo ocidental

Também alguns boleiros cristãos ligados ao Londrina Esporte Clube se aproximaram no intuito de conferir a peleja e, alheios aos acontecimentos políticos, acabaram torcendo para seus ídolos Tostão, Rivellino, Pelé e Cia.

Já rolando a bola, não passa muito tempo até o gol dos Tchecos, seguido de uma inflamada berraria vermelha. O fato não foi muito bem compreendido pelos boleiros ali presentes, que passaram a questionar o patriotismo em campo.

O diálogo começou animado: enquanto os comunas da Universidade Estadual de Londrina explicavam aos boleiros a importância da laicidade política no futebol, o artilheiro tcheco comemorava o seu gol com um devotado sinal da cruz.

O fato derrotaria, de goleada, os argumentos vermelhos, deixando claro o sufoco de se viver oprimido. Assim, o campo do Bar Brasil ficou livre para que os boleiros do LEC embalassem a virada estrondosa da nossa seleção, que acabou vencendo também de goleada (quatro a um).

Moral da peleja: por mais político que seja o futebol, ele precisa ser vivido e não pensado ou usado como método de persuasão social.  E mais: a desconfiança dos Brasileiros já vinha desde 1958, quando o goleiro soviético Lev Yashin buscou a bola duas vezes no fundo do barbante após a derrota durante a fase de grupos.

PS: Arnaldo Agenor Bertoni foi uma figura espetacular. Nascido em Lins, morou em Londrina na sua juventude, e fez uma aliança entre militância política e paixão pelo Santos. Faleceu em Curitiba, no final de 2008.

José Luiz Cerveira Filho é sociólogo formado pela Universidade Estadual de Londrina e professor de Sociologia na Universidade Federal do Paraná

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