A mesmice venceu a diversidade

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(AFP)

por Edson Ferracini

O tênis é uma das raras modalidades esportivas em que é possível disputar o mesmo jogo em diferentes superfícies de quadra, sem que, para isso, sejam criadas novas categorias independentes, como o vôlei, por exemplo, disputado em quadra e em areia.

A graça maior do jogo sempre foi a diversidade dos pisos, que imprimem diferentes velocidades à bolinha: as quadras duras, de cimento e de grama, são mais rápidas; as quadras de saibro, mais lentas.

Este diferencial do tênis em relação às outras modalidades oferece alternativas táticas e mudanças de estratégias, com as quais os tenistas têm de conviver. O fato é que, há 20 anos, o circuito de tênis profissional era bem mais atraente.

Saudosismo de velho? Não.

Hoje, nos 14 maiores torneios do mundo (os quatro Grand Slams, os nove Masters 1000 e o Masters Finals), em todos, sem exceção, os pisos são de velocidade lenta/média. Isto para favorecer os ralis, ou seja, as longas trocas de bola.

Para deixar o jogo mais lento, na pintura das quadras duras passa-se várias mãos de tinta e, na última mão, pinta-se com areia misturada.

Em Miami, por exemplo, a quadra dura fica tão lenta que parece o piso de Monte Carlo, que é disputado em saibro pesado.

Difícil é tentar explicar o porquê do piso da “grama sagrada” de Wimbledon ter ficado tão lento e com quique de bola mais alto.

O torneio mais tradicional do planeta sucumbiu ao modismo dos ralis de troca de bolas. Pela disputa de pontos mais longos, o All England Club maculou a têmpera da “grama sagrada”.

A grama de Wimbledon, tradicionalmente, sempre foi cortada a 8 milímetros na época em que o torneio é realizado – no final da primavera/início de verão.

Pela lógica, observando o piso menos veloz, parece que a grama, durante o torneio, está sendo cortada bem acima dos 8 milímetros. Mas as coisas não param por aí.

Entre a mesmice e a diversidade, optou-se pela primeira. O que é lamentável.

Ninguém fala sobre isso, mas, aparentemente, mexeram também no diâmetro/superfície das bolas, tornando-as mais pesadas e fazendo-as inchar mais rápido.

A marca Slazenger, utilizada há muitos anos em Wimbledon, e na teoria ideal para quadras de grama, está lenta e quicando alto. Este raciocínio das bolas vale, também, para os outros pisos.

Com isso, os jogadores, homens e mulheres, com pouquíssimas exceções, jogam da mesma maneira: sempre na linha de base e com um footwork (movimento com os pés) extraordinário, aliado à força e à preparação física.

Como o piso lento simplifica a leitura da vinda da bola, o percurso de encontro a ela torna-se mais fácil. Com isso, a estratégia da maioria dos atletas é uma só: se a bola vem lenta, entre nela e seja ofensivo, bata forte; se vem rápida, faz-se um ajuste ligeiro para a troca de bolas ou defesa.

Bem, enquanto isso, vou aproveitando o poente de Roger Federer, o “último dos moicanos” de um tênis que não existe mais.

Quando o suíço parar de jogar, meu interesse em assistir tênis profissional provavelmente irá diminuir.

Infelizmente.

CURIOSIDADE – Por falar em ralis, o ponto mais longo da história do tênis profissional deu-se em 24 de setembro de 1984, num torneio feminino em Richmond, Virginia (EUA). As norte-americanas Vickie Nelson e Jean Hepner fizeram a bolinha passar por cima da rede 643 vezes – o ponto durou 29 minutos.

Edson Ferracini, aposentado, tocador de violão, compositor e tenista amador veterano.
Ah…e por jogar tênis há 45 anos pensa que sabe escrever sobre o jogo. hehe…

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