A incrível trajetória de Marcelo dos Santos Matos

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por Luciano Victor Barros Maluly

Estava passeando com meus familiares em Botucatu (SP), há uns quatro anos, quando apareceu um sujeito alto e brincalhão. Ele começou a contar uma piada que alegrou a nossa mesa.  O sujeito me abraçou com força e contou sobre a trajetória dele como jogador de futebol de mesa (popularmente conhecido como futebol de botão).

Conheci esse velho novo atleta quando cursávamos o curso de Comunicação Social, com habilitação em jornalismo, na Universidade Estadual de Londrina (UEL).

Nossa amizade fortaleceu quando descobrimos uma semelhança: o amor pela Associação Atlética Ponte Preta, a Macaca de Campinas.  E para completar a felicidade, o irmão Maurício, hoje também professor na USP, era pontepretano. Um dia, ele apresentou o maninho. Rimos muito. O interessante é que eu só conhecia dois torcedores da Ponte: Seu Nicolau Campanelli e Sérgio Boretti, velhos companheiros de luta e que moram na Estância Turística de Piraju (SP).

            Meu novo amigo atuava como ator do Grupo Proteu e já viajava bastante, tanto que já tinha morado no Japão. Era tipo um ídolo da juventude e, às vezes, arranjava uns ingressos para os amigos quebrados.

Um fato engraçado foi quando quebrou um dente dias antes de uma apresentação.  Nosso amigo-ator não foi ao dentista, porque queria caracterizar a personagem (uma fada madrinha banguela). A peça “Barba Azul – um conto de fodas” foi encenada no Bar Valentino que, naquela época, ficava perto da Área de Lazer Luigi Borguesi, mais conhecido como Zerão, famoso parque da cidade.

Ganhamos (eu e mais 3 amigos também de Piraju (SP) – João Antônio, Cláudio Pezão e Luciano Kapeta) os ingressos, mas com uma condição: dois de nós precisávamos ficar sentados em cadeiras estrategicamente posicionadas. A fada madrinha entrou gritando e sentou, rapidamente, no nosso colo. Entrada triunfal. Foi muito constrangedor e divertido.

Anos depois, recebo a informação de que esse mesmo amigo, mais conhecido como Aranha nessa modalidade, integrava a Seleção Brasileira que conquistou o Campeonato Mundial de Futebol de Mesa, na Hungria, em 2015. Fiquei cheio de orgulho de conhecer e ser amigo de um campeão mundial.

Agora em março, tive mais uma surpresa:  fui convidado para participar da banca de defesa de doutorado dele no Programa de Pós-graduação em Comunicação e Semiótica na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

O título da tese é “A crueldade e o erotismo sacroprofanos na trilogia da depressão de Lars von Trier”, com brilhante orientação da Profa. Dra. Leda Tenório da Motta. A originalidade da tese traz uma análise reveladora, por meio de linguagem instigante e pontual, sobre os filmes “Anticristo” (2009), “Melancolia” (2011) e “Ninfomaníaca – Volumes I e II” (2013).

A defesa estava marcada para o dia 16 de março de 2020, às 14h30. Porém, percebi que algo estava errado com essa data. O meu incômodo foi resolvido ao receber uma mensagem do meu amigo, informando que a banca seria no mesmo dia do dérbi, no estádio do rival (Guarani), o Brinco de Ouro da Princesa. Meus nervos aumentaram e fiquei refletindo sobre a tesão que passaríamos naquele dia.

Poucos dias antes da tese, recebemos a informação de que a banca seria adiada devido aos problemas com o coronavírus (COVID 19).  A tensão aumentou não só pelo adiamento da banca, mas também por ser um jogo decisivo para a Macaca, lanterna do Paulistão 2020. Além do mais, a partida seria com portões fechados, além de ser a última do campeonato antes da paralisação em decorrência da pandemia.

O jogo começou e a Macaca logo fez dois a zero (Alisson e Roger) no velho rival, dominando o jogo e perdendo gols até o fim do primeiro tempo. A etapa complementar iniciou do mesmo jeito, com os atacantes alvinegros desperdiçando uma oportunidade atrás do outra. Do nada, o Guarani ganhou fôlego e equilibrou a disputa.  Marcou um (Toddynho), dois (Juninho) e três (Thallyson), com a Ponte jogando bem e perdendo várias chances claras para vencer a disputa. 

Final doloroso, de virada é mais desgostoso. Que dor; que melancolia. Depois do placar desse jogo, especialmente pela facada dos três gols bugrinos e dos sarrinhos do jornalista Marcelo Cardoso (também amigo e arquirrival no futebol), entendi alguns dos motivos que o levaram a pesquisar a trilogia da depressão.

Marcelo dos Santos Matos mora em São José do Rio Preto e ensina jornalismo nas Faculdades Integradas de Fernandópolis, no interior paulista, onde ministra aulas sobre os destinos da vida.


Luciano Victor Barros Maluly é professor de Jornalismo Esportivo na Universidade de São Paulo (USP)
 

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