A correria do Cupim e o medo do gol

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Por Antonio Santiago

Eu, e o resto da cidade, o conhecíamos pelo singelo apelido de Cupim. O nome de batismo creio que só os pais sabiam.

O cara era um afrodescendente boa praça. Alegre, bom papo, parça mesmo. Era ensacador e ai de quem o chamasse de saqueiro. Era flertar com hematomas, escoriações e fraturas ósseas.

Cupim era goleiro. Goleiro não. Era um senhor goleiro. E quando estava inspirado e com a cabeça cheia de manguaça, fechava “os três paus”. Pegava tudo, inclusive pênalti.

E foi em um dia desses que o arqueiro (ele adorava ser chamado assim) entrou para o folclore futebolístico de Londrina, no Paraná.

Era uma tarde de domingo e um calor infernal. Cupim defendia o time do bairro em um amistoso no campo de terra da vila. Jogo pegado. Poeira levantando, literalmente. Aí um torcedor, provavelmente do time visitante, estrategicamente posicionado atrás do gol, cismou de atazanar o goleiro.

Cupim resistiu bravamente até os trinta minutos. Mas o pavio era curto e ele abandonou a meta e partiu para cima do infeliz. O cara sentindo que sua vida corria perigo saiu correndo e o Cupim resolveu persegui-lo, para desespero de sua zaga.

Os caras pediam desesperadamente para colocar a bola para fora, simular um desmaio. Já o time adversário, gritava para atacarem, pois o adversário estava sem goleiro. O juiz parou o jogo e minutos depois chega o Cupim. Ofegante e bravo por não ter conseguido alcançar o fugitivo.

2 COMENTÁRIOS

  1. Quem jogou no gol, nos campos varzeanos ou de fazendas na década de 60, em campos invariavelmente de terra, sabe o que era ser visitante. a torcida ficava atrás do gol, e voce não tinha paz, a sua honra, da sua progenitora (esposa) era jogada na lama, e isto era o de menos. Pedrinhas, carrapichos e outras coisas brotavam dentro da pequena área , e sumiam quando terminava o primeiro tempo e brotavam de novo no segundo tempo no seu gol. Saudade de subir em cima de um caminhão velho, sem partida que tinha que ser empurrado, sem freio, com motorista bêbado, estradas de terra esburacadas, aventuras que começavam logo depois do almoço e terminavam a noitinha dos domingos. Desnecessário dizer que os juízes, caseiros cujo segundo tempo só terminava depois que o time da casa empatasse ou ganhasse o jogo com algum penalty devidamente providenciado. Quem viveu este tempo não esquece e tem cada história para contar.

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