A camisola era outra

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Por Antonio Santiago
Paulão era um afrodescendente de grande porte, o popular negão.
Alto , forte, parecia um guarda roupa com maleiro em cima.
Naqueles anos rebeldes, todos os domingos, após as partidas no campo de terra batida, os boleiros se reuniam no bar do Tadeu, para, a pretexto de comemorar a vitória ou chorar a derrota, encherem a cara até altas horas.
Mas voltando ao Paulão. Ele era casado e sua esposa não gostava muito que ele ficasse na “bodega”. Tanto não gostava que um dia, que já era noite, pintou lá chamando-o. Detalhe, ela estava de camisola e transparente ainda por cima. O negão enlouqueceu, deu uma dura na mulher e aos berros disse.
– Vá embora e nunca mais me volte aqui com essa camisola.
Naquele anos de chumbo, as mulheres ainda não falavam de igual para igual com os homens, e ela obedeceu chorosa.
No domingo seguinte, futebol, boteco, cachaça e tira gosto. E eis que lá pelas tantas surge a companheira do Paulão novamente e pasmem, de camisola transparente de novo. Foi a gota d’água. O afro já branco de raiva disse a ela.
– Eu não te disse que não era prá voltar aqui de camisola?
A pegou pelo braço e saiu arrastando-a pela rua, mas ainda deu tempo da galera ouvir a defesa dela.
 – Eu não te desobedeci, essa camisola não aquela que você proibiu, é outra.

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