A arte de fazer burrada nós dominamos

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Por Rogério Fischer

Não é só na política que vez ou outra a gente pisa na bola. No futebol, nossa capacidade de fazer burrada – o termo bem que poderia ser outro – é imensa. Quando tudo parece ter se encaixado, ficado bom, quando as coisas parecem estar nos trinques, vêm nossos dirigentes e chutam tudo para escanteio.

Vejamos o que aconteceu com alguma das regras de nossos principais campeonatos nos últimos anos.

O Brasileirão demorou um século – e isso não é força de expressão – para ganhar um formato decente.

Nossos vizinhos hermanos – argentinos, uruguaios, chilenos e paraguaios à frente – sempre tiveram seus campeonatos nacionais desde as primeiras décadas do século 20. Dois turnos, todos contra todos, etecetera e tal. Tudo bem, o Brasil é continental, então dávamos prioridade aos campeonatos estaduais, daí criamos os regionais (tipo Rio-São Paulo), daí avançamos para Taça Brasil, Robertão e só em 1971 tivemos o Campeonato Brasileiro propriamente dito. Contudo, um campeonato nacional genuíno, pontos corridos, dois turnos, como em toda América do Sul, só tivemos mesmo em 2003.

Mesmo assim, houve grita geral, porque estávamos acostumados aos mata-mata nas fases decisivas. Essa grita foi aos poucos sufocada graças à Copa do Brasil, que existe desde 1989 e, com o Brasileirão por pontos corridos, ganhou um sabor ainda mais especial, por conta dos confrontos diretos, ida e volta, que definem quem avança.

Beleza. Temos agora então um campeonato nacional por pontos corridos e uma copa disputada toda ela em mata-mata reunindo trocentos times de todas as divisões. Nada que os europeus não conhecessem há mais de 100 anos, mas até aí tudo bem, nunca é tarde pra aprender e fazer a coisa certa.

E tem a Libertadores. Ah, a Libertadores das pancadarias homéricas, dos roubos flagrantes… Que delícia! Também é disputada no sistema mata-mata, mas, antes, ao contrário da Copa do Brasil, rola uma fase de grupos, para classificar os melhores às etapas decisivas.

A Copa do Brasil nasceu com o tal gol qualificado, o que sempre deu à competição um sabor, repito, especial. Gol na casa do adversário vale muito. Neguim empata sem gols em casa e se classifica com 1 a 1 fora. Criou-se uma tradição, o torcedor ficava com os nervos à flor da pele, o jogo era disputado com base nesse critério. Um diferencial delicioso, por sinal.

Daí a Libertadores, que havia crescido muito e chegado a 32 times, passa a adotar, há alguns anos, um critério espetacular: classificam-se os dois melhores de cada um dos oito grupos e, nas oitavas, o primeiro colocado no geral enfrenta o 16º. Perfeito. Espetacular.

Daí algum cabeça oca da Conmebol, cabeça colonizada, com certeza, resolve – tentando imitar a Champions, que sorteia os confrontos na fase decisiva – sortear os confrontos das oitavas. E o que acontece? O 1º não pega mais o 16º. Pode pegar o 9º colocado, enquanto o 8º colocado pode levar sorte e pegar o 15º. Brincadeira? Quando tudo parece encaixado, vêm os caras e estragam tudo.

Só para darem uma de europeu e promoverem um sorteio transmitido pela TV. E divulgar marcas, of course. Para agradar patrocinadores, dão um bico na justiça do jogo. O time dá um duro danado para ficar em primeiro lugar e, de repente, se vê frente a frente com um adversário mais qualificado do que aquele que o 8º colocado vai encarar. É pra cabá!

Para complicar ainda mais para nós, brasileiros, vem a CBF e acaba com o gol qualificado da Copa do Brasil. Toda aquela tradição, aquela característica peculiar, que deixava os confrontos especiais, cai de uma hora para outra, transformando os confrontos em algo comum, com os placares agregados.

Quanto mais o tempo passa, mais cagada – digo, burrada – a gente faz. E não é só na política.

Rogério Fischer é jornalista

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